sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Criando uma História em Quadrinhos - Parte 1

Este texto foi originalmente publicado aqui: Parte #0 e Parte #1 , em inglês. Como é um texto muito longo, decidimos publicar aqui no blog em duas partes. Em breve a continuação! Fique de olho!

CRIANDO UMA HISTÓRIA EM QUADRINHOS

#0: Por onde eu começo?

Você gosta de histórias. Você quer contá-las.
Mas é mais do que isso, não é?
Você quer construí-las.
Quer que outros sintam e vivam sua história.
Contamos histórias todo dia em conversas, mas como podemos transformá-las em arte seqüencial?

"Por onde eu começo?"

Palavras, palavras e mais palavras!

Em muitos sentidos, os quadrinhos, ou seja, arte seqüencial, lembram a arte de fazer filmes. Toda história em quadrinhos tem seu próprio design e seu próprio estilo de “direção”, até no modo como os personagens pensam e agem. A arte dos quadrinhos tem sido sempre ligada a domínios como o do storyboarding ou do design gráfico. Apesar de a linguagem comumente usada incluir o termo “romance” (como em graphic novel, ou “romance gráfico”), o típico estilo de escrita de romances deve ser adaptado aos quadrinhos do mesmo modo que é remodelado para um roteiro de cinema ou TV. Quadrinhos não envolvem apenas os pensamentos e sentimentos de seus personagens, mas também incluem ações específicas para mostrar suas emoções. Mesmo se você está mostrando um personagem introvertido que fala (e pensa) consigo mesmo, você deve criar uma fluência lógica para tal solilóquio ocorrer e adicionar recheio ao enredo.

Quadrinhos são parentes de livros e romances, mas ao mesmo tempo não são exatamente livros e romances. Eles são adaptações dessa mídia intimamente relacionada a eles. Você pode escrever seus quadrinhos primeiro em forma de prosa? Claro que pode! Mas você deve estar equipado com o conhecimento de que as duas mídias podem ter também suas diferenças drásticas. O que pode funcionar num romance talvez não seja o melhor e mais prudente modo de se mostrar numa HQ.

Deixando de lado as questões de storyboard e fluência de painéis por enquanto, focaremos nossa atenção em todo o intimidador processo de criação de uma HQ – contar uma história com palavras e imagens. Onde começamos a procurar por uma boa história para contar? Você simplesmente mistura suas preferências numa maçaroca ficcional? Adiciona uma auto-inserção espertalhona e torce pelo melhor, afinal, quem não se identificaria com você? Ou simplesmente corre para comprar todos os livros que você conseguir encontrar sobre escrita?

Existe uma imensidão de maneiras de se fazer isso, e sem dúvida existem várias diferentes camadas na escrita de uma história. Vá a apenas uma livraria e você se defrontará com paredes de livros com assuntos variando entre estrutura, caracterização, diálogo, e por aí vai. Talvez você jogue suas mãos para o alto e se arraste até a cafeteria para achar alguma revista interessante. Talvez você mande para baixo um café ou dois, irritado e perturbado com a idéia toda. Por onde você começa?

A verdade é que você pode começar por qualquer lugar – até mesmo seu próprio quintal! (Um tesouro escondido, talvez? O X marca o lugar!) Não precisa ficar bom logo no começo, desde que você comece! Alguns de vocês talvez se agarrem à antiga e famosa declaração “Eu escrevo para mim mesmo”. Essa é uma maravilhosa declaração, e eu não a critico nem um pouco. Todo mundo que pintou com os dedos já experimentou a imensa satisfação que vem do processo de simplesmente criar. Entretanto, esteja você escrevendo para si mesmo ou para algum público, eu acredito que ainda vale a pena pelo menos considerar a questão de escrever/contar histórias por diferentes perspectivas.

Então, foquemos nosso esforço aqui. Sobre o quê exatamente queremos falar? Podemos destilar essas várias complexas questões em um simples plano de princípios que podemos relacionar aqui e agora com fazer quadrinhos? Vamos tentar. Manteremos isso bem amplo e dividiremos em seções. Refletiremos sobre nossos próprios interesses e experiências. Daremos uma olhada em gêneros, demografia e públicos-alvo. Mais tarde, meditaremos sobre que tipos de técnicas de brainstorm temos por aí – conceituação, fluxogramas e esboços – e veremos qual deles funciona para você. Mais tarde ainda, falaremos sobre personagens, a ilusão de vida, e escrita com público definido. Consideraremos a idéia dos quadrinhos não apenas da perspectiva de um escritor, mas também do ponto de vista de um designer conceitual.

Vamos começar!

#1: Gênero e público-alvo

“É mais fácil acertar seu alvo quando você abre os olhos e mira.”
– anônimo

Deixe-me perguntar algo.

Quando você entra numa loja de roupas, tem uma idéia geral de qual é o tamanho que você usa? Bem, então. E quanto ao seu estilo? Você tem uma seleção relativamente definida no seu armário, talvez nada mais do que jeans desbotados e camisetas com bolsos? Ou possui uma chamativa diversidade de roupas de designers, variando de couro de alta qualidade a tweed a cetim? Você é do tipo que nunca usa vestidos? Talvez você sempre use azul. Você se define como: Gótico? Punk? Mauricinho? De negócios? Casual? Sexy? Peculiar? Excêntrico? Há um rótulo ou estereótipo pessoal que vem espontaneamente à sua mente?

Quem é você?

Seja você quem for, eu aposto que provavelmente tem pelo menos alguma idéia de qual é o seu estilo pessoal de roupas. Quando você entra naquela ousada loja de departamento ou naquela loja de roupas econômica mas especial, você geralmente usa seus olhos para determinar se o estilo, cor e corte de algum item combina com você. Depois de ter achado aquela camisa “bonitinha” ou aquela jaqueta “liiiinda”, a maioria de vocês se dirige aos provadores para testar de perto, porque mesmo que aquela peça fique boa no manequim, o espelho pode contar uma história bem diferente.

Agora, e quanto aos seus livros? Seus filmes? Sua música? Seus quadrinhos? Você se encontra gravitando em direção a um certo gênero ou categoria? Ou talvez simplesmente tenha noções pré-concebidas quando vê propagandas ou capas de livros. Você exclui de cara aquele “filme de machão”? Revira os olhos com aquele filminho água-com-açúcar para garotas? Ou tem vergonha de admitir que adora aquele livro super romântico? Quem é você como espectador ou leitor? Pode parar por um minuto e classificar a si mesmo, ou notar os padrões no seu próprio comportamento? Além disso, pode olhar em volta e determinar quais os tipos de pessoas que o rodeiam? E do que é que eles gostam?

Ok, então para onde vamos com tudo isso? Bem. Esse artigo não tem a intenção de ser um guia definitivo para tudo que está lá fora, nem é uma brincadeira de “amarelinha” com todos os passos certos definidos para se fazer quadrinhos. Ao invés disso, pegaremos alguns conceitos categóricos da escrita, dos filmes e do marketing, para misturarmos aos nossos pensamentos e, esperamos, darmos ignição à bateria que energiza nossas mentes criativas.

Leia aqui a segunda parte do texto: Parte 2

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