segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Dicas para desenhar cenários

O texto a seguir foi escrito pelo quadrinista americano Sean Gordon Murphy, e as ilustrações do post também são de sua autoria. Para ler o texto original em inglês, visite o link: http://seangordonmurphy.deviantart.com/journal/42911607/, e aproveite para conhecer mais de seu trabalho navegando por seu perfil no DeviantArt.



DICAS PARA DESENHAR CENÁRIOS – Sean Gordon Murphy

Olá a todos! Algumas pessoas já me perguntaram sobre conselhos para desenhar cenários. Então, ao invés de ser um verdadeiro cavalheiro e responder para cada pessoa separadamente, decidi que é mais fácil abordar isso com um belo e impessoal texto no meu Diário! Talvez um dia eu monte um tutorial ou algo assim para demonstrar de fato sobre o que é que estou falando, mas por enquanto uma rápida lista terá de ser suficiente.

*Antes que eu comece, um rápido aviso – de forma alguma eu tenho isso totalmente resolvido. Minhas opiniões sobre cenários e como prepará-los estão sempre mudando. Muito do que eu penso é baseado no trabalho dos artistas em cujos ombros eu me apoio. Sinta-se livre para discordar de qualquer coisa que eu disser.

APONTE-E-CLIQUE
Você se lembra daqueles jogos estilo “aponte-e-clique” dos anos 90? Eu amava aqueles jogos! Indiana Jones and the Fate of Atlantis, Flashback, Full Throttle, Space Quest, Hero Quest – jogos de aventura sempre me deixavam maravilhado com o quão belos, imaginativos e expansivos os designs dos cenários eram. O objetivo desses designs era estimular sua imaginação e dar aos seus olhos algo para fazer, porque você normalmente acabava voltando para aquelas telas para procurar chaves perdidas e outras coisas que eram necessárias para que se completasse o jogo. E isso é o que eu aconselho em termos de desenhar cenários em quadrinhos: planeje-os de uma maneira que faça os leitores gostarem de voltar a eles. NÃO desenhe cenários com pressa apenas querendo terminá-los logo.

PLANEJE
Não pense e desenhe seus cenários apenas como um mero complemento. Planeje os designs com o mesmo cuidado com que você planeja o desenho de seus personagens. Os dois existem no mesmo painel, portanto devem ser planejados igualmente.

DETALHAMENTO SELETIVO
Eu admiro muito os artistas que detalham cada centímetro quadrado de seus cenários. Mas eu sei que não sou esse tipo de artista – eu prefiro detalhar em torno do foco principal do quadro, e deixar os detalhes diminuírem à medida que o olhar se afasta para as partes menos importantes dele. Isso ajuda o leitor a perceber melhor o que é que ele deveria estar observando enquanto você tenta direcionar seu olhar. Isso também ajudará a economizar sua energia, e também a do leitor – olhar para cenários fantasticamente detalhados é ótimo, mas pode ser cansativo durante a leitura. Faça um favor a você mesmo e guarde um pouco da sua habilidade para quando for necessário.


ADICIONE ESPECIFICIDADE
Não desenhe objetos genéricos, desenhe-os especificamente para se encaixarem nos ambientes dos personagens. Uma cadeira de madeira reta, comum, talvez cumpra seu papel, mas esse tipo de cadeira é chato. Desenhando uma cadeira específica – como uma daquelas cadeiras verdes barulhentas de escritórios dos anos 60 – mais possivelmente você estimulará seu leitor. Você quer que ele pense “Eu CONHEÇO essa cadeira!”, então deveria apresentar objetos que o envolvam.

*Aliás, tente SEMPRE se manter longe de ter que desenhar uma cadeira genérica. Eu sei – várias pessoas com salários medianos vivem em lares genéricos com cadeiras genéricas. Mas nenhum leitor quer gastar seu tempo nesses ambientes. Melhor fazer essa cadeira com alguma especificidade, mesmo que o roteiro não indique isso – tente fazê-la “gasta”, “detonada”, ou uma um pouco mais bonita, quem sabe com um encosto alto e firme. Queremos “hiper” objetos, não objetos chatos e comuns.

DIMENSIONALIDADE
Tente adicionar elementos como pontes, portas, passarelas, escadas, rampas e qualquer outra coisa. Mesmo que os personagens não os usem, ver que eles PODERIAM usar faz dos cenários algo mais interessante porque oferece aos personagens E aos leitores algo a ser explorado. O que é mais interessante: uma sala comum, simples, ou uma sala com uma escada em espiral levando a algum lugar fora do painel? O que é mais interessante: um rio, ou um rio atravessado por um tronco enorme, do tipo que se pode usar para andar até o outro lado? Mesmo que você esteja desenhando um caminhão de lixo, faça-o com uma escada encaixada em um de seus lados. Eu adoro detalhes como esses.

PERSPECTIVA
Não há como fugir dela. Meu conselho é adquirir um livro chamado “Perspective! For Comic Book Artists”, de David Chelsea. Eu tive um professor na faculdade que costumava fazer ilustrações para a NASA e ele nos desafiou uma vez com um problema de perspectiva que ele não tinha sido capaz de resolver. Depois da aula, eu mostrei a ele uma resolução e ganhei um “A” automático no semestre. Ele me perguntou onde eu havia aprendido aquilo, e eu contei sobre esse livro. BAM!


SOLUÇÕES CRIATIVAS
Se você não gosta de desenhar cenários, então você precisa encontrar uma maneira de fazer isso que te dê prazer. Se você não se interessa pela sua arte, isso transparecerá nela. Pelo que eu sei, Mike Mignola não é um grande fã de desenhar perspectiva, mas ele encontrou o seu jeito de abordar cenários sem ter de fazer montes de medidas. E ele é um mestre – os ambientes que desenha são lindos e tem aquele aspecto de “aponte-e-clique” que eu adoro. NÃO COPIE do Mike – encontre seu próprio jeito de fazer as coisas. O objetivo é que seus leitores identifiquem sua arte instantaneamente também pela sua maneira particular de imaginar os seus cenários.

APENAS O NECESSÁRIO
Se você não precisa de um cenário, não o desenhe. Aproxime-se de um rosto ao invés disso. Melhor não ter cenário, do que ter um mal-feito e desnecessário. Ou se você se encontrar sem energia no fim do dia, re-imagine o seu quadro e encontre uma maneira de disfarçar o fato de que você está cansado. Deixe seus “sentidos de design” trabalharem por você.

FAÇA UMA PAUSA
Se você detonou em um monte de cenários detalhados nas últimas três páginas – dê ao leitor uma página com espaço para respirar. Use cenários mínimos ou então nenhum. Eu tento fazer sempre pelo menos UM cenário por página, mas não há necessidade de sobrecarregar seu leitor jogando em sua direção página atrás de página com cenários mirabolantes e fantásticos. Queremos mostrar ao leitor que sabemos o que estamos fazendo e não temos medo de desenhá-los, mas assim que ele entender a idéia, dê-lhe uma pausa nesse ritmo.


MOSTRE O CONJUNTO
Eu acho que os artistas de quadrinhos deveriam acertar em cheio pelo menos cinco cenários do tipo “UAU!” em cada revista. São aqueles cenários que levam as pessoas a fazerem uma pausa na leitura e que ajudam a situá-las (principalmente se for um cenário novo na história). Desenhando o cenário “UAU!” mais cedo na sequência, você também estará resolvendo problemas logísticos em sua própria cabeça. Aí será mais fácil usar “atalhos” inteligentes mais tarde na cena.

PESQUISE
Artistas no passado costumavam trabalhar em estúdios e compartilhar catálogos de referências retiradas de revistas e outras fontes. Nós atualmente temos o luxo do Google e do Flickr. Em outras palavras, não há razão para não se fazer pesquisa. Se você realmente quer ganhar o respeito de artistas veteranos, então dedique seu tempo a isso. Se você não é do tipo que pesquisa para uma página NO DIA em que está desenhando-a, então faça as pesquisas necessárias para uma edição completa durante um sábado.

THE SIMS
Você conhece o jogo The Sims, em que você controla o mundo do seu personagem? E toda vez que ele vê algo de que gosta, um SINAL DE MAIS verde aparece sobre a sua cabeça? E toda vez que algo ruim acontece, um SINAL DE MENOS vermelho aparece? Esse é o seu leitor. Quanto mais você o estimula com coisas boas, mais envolvido ele fica pela sua história. Quanto mais desleixado você é com as escolhas que faz para seus cenários, mais você aumenta a chance de um SINAL DE MENOS aparecer sobre seu leitor. Eu recomendo que você folheie os seus rascunhos e layouts antes de começar. Faça com que haja pelo menos um pouco de material que faça surgir um SINAL DE MAIS verde nas suas páginas.

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Espero que isso ajude. Outras coisas para pesquisar se você estiver interessado: a regra dos terços, a espiral dourada (ou retângulo dourado), e a regra do 75/25 (aqui está um link que você precisa assistir por 5 minutos para ver).

2 comentários:

sonick disse...

gostei!!!!!

Bruno disse...

Muito bacanas as dicas.
Obrigado pela tradução.