segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Entrevista com Profissionais de Quadrinhos


A entrevista a seguir foi conduzida pelo professor Emerson Penerari para o curso de Educação Artística da UNAR (Universidade de Araras). No próximo parágrafo, ele explica quem são os entrevistados e, a seguir, você confere a entrevista na íntegra.

Entrevista com Profissionais de Quadrinhos

A entrevista aborda como é o mercado dos quadrinhos e a profissão em geral, como as pessoas são atraídas para este trabalho e o funcionamento das mentes de quem vive com isso e qual a funcionalidade por trás do entretenimento. Maurilio DNA desenha no estilo Mangá e é professor de desenho na Ânima Academia de Arte (www.anima.art.br). Marcelo Ferreira desenha quadrinhos para o mercado americano, e também é professor e sócio na Ânima. Maurício Muniz é um editor de renome no mercado brasileiro e responsável pelo lançamento de várias revistas americanas em nosso país. Acompanhe um pouco das opiniões deles:

1 -  Fale um pouco de seu ramo profissional e o que você já fez de relevante na área.

Maurílio DNA: Tenho atuado mais como ilustrador. Sou formado em publicidade, um dos mercados mais comuns para quem trabalha com ilustração, contudo, não exerço desde que me formei, quando passei a lecionar desenho, mangá para ser mais preciso. Como quadrinista, ou cartunista, como prefiro chamar, já publiquei em uma revista independente e, atualmente, faço parte de um projeto editorial que, até o momento, é inédito no mercado editorial de histórias em quadrinhos no Brasil, apesar de ser o predominante em países como o Japão, sua origem.

Marcelo Ferreira: Acho que os quadrinhos podem ser considerados como uma forma de arte, uma mídia, ou ainda uma forma de expressão, um jeito pra se contar histórias.
É claro que esse "jeito pra se contar histórias" se transformou em uma expressão cultural e em indústria mesmo, ao redor do mundo. E se a gente falar em indústria, aí temos que reduzir pra EUA e Japão. E hoje os quadrinhos estão desfrutando de uma nova popularidade pelo mundo.  O que eu fiz de mais relevante até hoje na indústria (e que estou fazendo ainda hoje) é o trabalho como desenhista principal do título "Richie Rich" (Riquinho), da editora Ape Comics, para o mercado americano.

Maurício Muniz: O trabalho de edição de histórias em quadrinhos divide-se em:
- Para materiais internacionais: escolha de material, contato com licenciantes, editoras e autores, recebimento de material de reprodução e coordenação e revisão das fases de produção: edição, letreiramento, textos editoriais, aprovação da fase de impressão, produção de release de imprensa sobre o material e criação de campanhas para lançamento.
- Para materiais nacionais: escolha, contato com autores, sugestões de conteúdo, aprovação de material, coordenação de produção, textos editoriais, aprovação da fase de impressão, produção de release de imprensa sobre o material e criação de campanhas para lançamento.
- Na área, já escrevi para revistas como WIZARD, HERÓI, MUNDO DOS SUPER-HERÓIS e SCI-FI NEWS, editei títulos como SIN CITY, SANDMAN, PREACHER, HELLBLAZER, STARMAN, STAR WARS, JUIZ DREDD e MONSTRO DO PÂNTANO e trouxe ao Brasil - pela primeira vez - títulos como A LIGA EXTRAORDINÁRIA, O CORVO, SLÁINE: O DEUS GUERREIRO, AUTHORITY, PLANETARY, TOM STRONG, TOP TEN, A BALADA DE HALO JONES, FRACASSO DE PÚBLICO, FILÓSOFOS EM AÇÃO, MUNDO FANTASMA e COMBATE INGLÓRIO.


2- Como você acabou entrando no ramo de quadrinhos? É preciso ser um fã  para se trabalhar com isso?

Maurílio DNA: Acredito que tudo começa sendo fã de quadrinhos. No geral, o artista sempre inicia copiando seus ídolos, depois atende à necessidade de criar algo próprio e desenvolver seu talento, iniciando aulas ou aprendendo sozinho como auto-didata. Comigo não foi diferente. Se o artista for mais atraido por outras áreas, como ilustração literária ou animação, vai acabar seguindo essas carreiras e não a de artista de HQ. Assim, ser fã influencia muito a decisão de qual mercado deseja atuar. Deseja porque nem sempre atuamos na área que gostaríamos.

Marcelo Ferreira: Acabei entrando depois de muito trabalho e insistência. Sempre quis o mercado de fora, especialmente o americano, porque sempre percebi que as iniciativas de se trabalhar com quadrinhos aqui eram sempre muito aventureiras, sempre envolvendo gente não muito profissional. Resumindo, o Brasil não possui indústria de quadrinhos, então sempre quis trabalhar com os profissionais.
No começo de carreira (entre 1999 e 2001), ainda muito inexperiente, tentei, sem sucesso, ter um agenciamento. Depois me dediquei por anos à ilustração somente. Em 2006 voltei a tentar um agenciamento pro mercado americano e consegui. Mas aí não consegui encaixe na indústria por todo tempo que fiquei com meu agente, entre 2006 e 2010, que foi quando, sozinho, consegui meu primeiro trabalho com a Ape Comics indo até a convenção anual New York Comic Con, em Nova Iorque.
Acho que não precisa ser fã de HQs para se trabalhar com elas. Às vezes isso pode até atrapalhar, na medida em que você pode ficar muito ansioso por pensar que você pode acabar trabalhando junto com seus ídolos, ou desenhar aquele personagem que você lia na infância, ou coisa do tipo. Você tem é que ser muito profissional e estar muito bem preparado para ser um desenhista de quadrinhos, que é muito diferente de ser um desenhista que ilustra ou faz qualquer outro tipo de trabalho. Desenhar ou ilustrar bem, de maneira alguma implica que você fará quadrinhos bem. Tem que se dedicar muito e estudar muito. E praticar muito.

Maurício Muniz: Comecei no ramo como gerente da loja de quadrinhos Devir Livraria, o que me levou a contato com editoras para as quais comecei a escrever sobre HQs, depois a traduzir HQs e, finalmente, a editar revistas em quadrinhos. Com o tempo, prestei serviços para editoras como Globo, Abril, Escala, Metal Pesado, Atitude, Europa, Pandora Books e Gal Editora.
Acho que ser fã de quadrinhos é uma vantagem nessa área. Seja pela visão histórica que permite analisar melhor analisar materiais, seja pelo conhecimento sobre personagens e cronologia, que o permitirá trabalhar melhor com alguns títulos. Não é necessário ser fã, mas ajuda muito. Hoje, no mercado nacional, 90% dos editores em atividade começaram como fãs.


3- E sobre o mercado de quadrinhos atualmente? É um bom campo para se profissionalizar?

Maurílio DNA: Existem quadrinhos sendo vendidos, e existem pessoas comprando, logo existe um mercado. E não é pequeno se formos ver a quantidade de títulos e as vendas, mas comparado com outros países, é um mercado modesto, iniciante. Contudo, a grande maioria do material DE QUALIDADE nas bancas e livrarias ainda é estrangeiro. Isso se deve ao baixo custo que envolve trazer e traduzir um título do exterior, aliado ao fato de haver uma pré-demanda, já se se trata quase sempre de publicações já consagradas
e com retorno praticamente garantido. Logo, o que falta no mercado brasileiro é uma falta de crédito no produto nacional por parte dos investidores e das editoras, que são norteadas pelo pensamento do gastar pouco, lucrar muito e rápido. Isso está mudando ao poucos com os editais de fomento de produção cultural, com subsídios governamentais. No entanto, isso restringe àspublicações de quadrinhos ao formato de livro, aprisionando as obras ás livrarias e lojas especializadas. Num país sem hábito de leitura difundido, o resultado é quase insignificante. É um modelo de publicação parecido com o utilizado na Europa, mas que já foi explorado aqui nos anos 1980, sem muito sucesso.
Para o artista se profissionalizar em um meio tão inóspito, se não hostil, ele tem que se dirigir ao nicho mais rentável do mercado: o infantil, mas a hegemonia de Mauricio de Souza torna impossível que esse artista seja um destaque, ou impeça-o de ser absorvido pela máquina da MS Produções.
Aliado a isso, temos um preconceito forte do grande público, que acredita que quadrinhos é entretenimento exclusivamente infantil, ou para nerds e desocupados. Assim, perdemos uma gigantesca fatia de mercado num ciclo vicioso: os jovens e adultos "normais" não se interessam por não haver (ou não terem conhecimento de) material publicado com os assuntos que os interesse, e materiais desse tipo não são produzidos por que o público a qual ele seria dirigido, teoricamente, perdeu o interesse em procura-lo e lê-lo. Outra saída para o aspirante a profissional é tentar atender demandas de quadrinhos institucionais, utilizados em empresas, no Estado e algumas vezes na educação para comunicação institucional e ideológica.
São clientes que chegam a pagar bem, mas o quadrinista está sujeito a uma série de restrições imposta por eles, muitas vezes sub-utilizando seu potencial criativo. A última trilha da profissionalização, mas não menos importante, é o mercado estrangeiro. Não é de hoje que editoras Estadounidenses e européias publicam material de artistas brasileiros, considerado talentosos e profissionais. As japonesas ainda não deram tantas chances, porvavelmente por causa do choque cultutural, mas de uns anos para cá elas têm feito concursos de material estrangeiro. Além disso, recentemente editores coreanos sondaram o mercado brasileiro à caça de novos talentos. É uma trilha que requer muita dedicação, prática, perseverança e paciência, mas com a conectividade que a internet proporciona, encurtando distâncias e ajudando com as línguas estrangeiras, graças a seus tradutores online, acredito que seja a que mais vale a pena tentar.

Marcelo Ferreira: Acho que sim. Como eu disse, é um campo em ascensão, que está cada vez mais profissionalizado, ou seja, o nível geral de quem está trabalhando com isso está cada vez melhor (o que pode implicar um dificuldade maior para se entrar, na medida que você tem que estar muito mais bem preparado). A indústria americana geralmente paga bem (editoras médias e grandes), e no Brasil tem cada vez mais iniciativas de publicações, gente mais séria do que antigamente, além de incentivos com leis para cultura, que facilitam pra quem quer publicar seu próprio material e a princípio não tem dinheiro pra isso.  E além de tudo é muito divertido trabalhar com quadrinhos. Muito trabalhoso, mas muito divertido.

Maurício Muniz: O mercado mudou muito nos últimos 30 anos. As HQs de bancas, que nos 1980 e 1990 vendiam até 100.000 exemplares, hoje em muitos casos ficam na casam dos 5.000 a 10.000 exemplares vendidos. Porém, as HQs migraram com grande força para as livrarias, onde atraem hoje um público mais maduro e de mais poder aquisitivo com álbuns que trazem histórias completas. Sobre profissionalizar-se: é um bom campo para os amantes de quadrinhos e livros, mas dificilmente é um campo que trará fortuna, principalmente no Brasil. Portanto, o "amor à arte" é importante para quem planeja trabalhar na área.


4- O que você acha da arte contemporânea em geral?

Maurílio DNA: A arte está com um público muito restrito. Não por culpa dos artistas, que vivem em busca de novas estéticas, linguagens e idéias, lutando contra o paradigma de que tudo o que podia já foi criado. O problema reside na educação da grande maioria da população, que deixou de aprender a apreciar, a avaliar e a sentir uma obra em prol de um desenvolvimento de capacidades práticas voltadas ao dia a dia. As pessoas "emburreceram" artisticamente e se distanciaram da arte no geral.

Marcelo Ferreira: Acho ruim. Não entendo a arte contemporânea, do tipo que se vê nas Bienais de São Paulo. E, na minha opinião, se eu não a entendo, ela não serve de nada.
Não é plástica, não a entendo, então, ela se presta a quê? Acho que a arte contemporânea é um refúgio de gente sem talento que acha que pode ser artista fazendo esse tipo de coisa.
A arte das HQs hoje, no geral, é de nível muito melhor que há 10 anos. Por sua vez, a arte de 10 anos atrás era melhor do que a de 10 anos antes, e assim vai. Se você estudar a curva de talento presente nas HQs desde o final do século XIX, você vai ver que no geral os quadrinhos evoluem artisticamente como um todo, independente se estamos falando de EUA, Japão, Europa ou Brasil. Claro que sempre tem um artista expoente, muito melhor que a média de seu tempo e etc. que surge vez em quando, mas no geral é sempre uma caminhada pra frente.
Hoje a gente tem uma porção de estilos e técnicas sendo aceitas e usadas. Muitos artistas bons de verdade fazendo HQs, o que é ótimo.

Maurício Muniz: Por um lado, nunca se produziu tantas obras interessantes quanto hoje, em cinema, TV, literatura, quadrinhos etc. Por outro, muitos dos produtores de cultura dão origem a obras medíocres e que não exigem muito do público, que hoje - em sua maior parte - não gosta de obras complexas demais. Por isso, muito da cultura pop usa o "mínimo denominador" comum para criar obras de fácil digestão pelo grande público e, geralmente, de baixa qualidade.

5- Como você vê essa influência que os quadrinhos exercem em outros tipos de arte, como cinema, literatura, escultura e música?

Maurílio DNA: Isso se deve à constante busca do novo, citada na resposta anterior, e presente em todas as expressões artísticas. É, na verdade, um ciclo. Por exemplo, os mangás usam de cenáriso e planos de fundo fortemente inspirados no expressionismo alemão do início do século XX, em busca da capacidade de passar, com imagens, uma sensação ou sentimento. Décadas depois, presenciei uma exposiçãode um pintor japonês que, assim como Roy Lichtenstein fez nos EUA com sua POP ART, trouxe a estética dos quadrinhos, mas especificamente dos japoneses, para suas obras. Outro exemplo: as HQs sempre beberam na fonte do cinema, usando muito da linguagem visual como movimentos de câmera e enquadramentos. Agora, o contrario acontece, com o crescente número de adaptações de HQs para o cinema.

Marcelo Ferreira: Acho excelente. Acho que todos os tipos de arte tem que "conversar" entre si, trocar influências uns dos outros. E acho especialmente legal quando as outras formas de arte tiram coisas das HQs, porque isso é um tipo de reconhecimento, já que os quadrinhos muitas vezes e ainda hoje, apesar de toda a popularização e reconhecimento, podem ser vistos como uma arte mais marginal, apesar de serem a nona arte.

Maurício Muniz: No passado, quando uma revista em quadrinhos vendia centenas de milhares de exemplares - ou, em alguns casos, milhões de exemplares -, os quadrinhos atingiam um grande público que, com o tempo, tornou-se realizador de cultura. Por isso, como tiveram o contato e a influência das HQs em sua formação, é natural que levem seus conceitos, fórmulas e personagens para a arte que produzem. Acho a influência positiva... Mas, hoje, todas as artes recebem um tanto de influência de outros meios. Da mesma forma, os quadrinhos vêm cada vez mais recebendo influências da literatura, do cinema, da TV e das artes plásticas em geral.


6- Em vários países os quadrinhos são tratados seriamente e são lidos por pessoas de várias idades e classes sociais. Infelizmente no Brasil sempre houve um certo preconceito com fãs de quadrinhos que já passaram da adolescência. Você acha que isso pode mudar? O que é preciso mudar na própria cultura do brasileiro para que ele encare o quadrinho como arte?

Maurílio DNA: Como respondi anteriormente, isso se deve a um preconceito de que HQs são diversão para crianças, nerds e desocupados. Fora que a carreira de artista de quadrinhos é menosprezada, somos um bando de folgados que passam o dia desenhando, como se isso não fosse trabalho. Botando de lado esse preconceito, e tentando muda-lo, muitas pessoas têm tentado elevar os quadrinhos a outros status, surgindo assim estudos de sua capacidade como  ferramenta didática e de comunicação, o que faz surgir o já citado mercado de HQs institucionais. Mas isso é muito limitado.
Ao meu ver, o que falta é uma variedade de publicações que tratem de assuntos variados e que interessem outras faixas de população. Com o tempo, as pessoas começam a conhecer coisas novas e se sentirem atraídas por coisas que não são heróis com super poderes e roupas de couro (ou colants coloridos), cavaleiros e elfos lutando contra Orcs, magos e demônios, nem mesmo bichos antropormofizados ou crianças que nunca crescem e vivem grandes e inocentes aventuras.
Elas passam a se interessar por esportes, carros, mercado financeiro, medicina, veterinária, etc. Se fosse diferente, o mundo seria povoado exclusivamente por artistas de quadrinhos, que seriam desempregados e morreriam ao primeiro resfriado por não haver um farmacêutico pra vender-lhes uma aspirina.
Exageros à parte, meu palpite é que a partir do momento que histórias que tenham algum apelo pra outras faixas da população comecem a ser escritas e desenhadas, o mercado vai sofrer um aquecimento e uma expansão natural.
Contudo, não acredito que seja uma saída para os quadrinhos aspirar se igualar à arte. No meu ponto de vista, quadrinho de arte só interessa a nós quadrinistas que temos uma sensibilidade desenvolvida. Para mim, os quadrinhos devem se igualar ao cinema ou a TV. Entretenimento de massa. Foi assim que os mercados estadunidense e japonês cresceram. Depois de se tornarem grandes, eles puderam experimentar e inovar, características da arte em si. E mais: quando o grande público voltar a apreciar obras de arte da maneira que ela merece, os quadrinhos, assim como o cinema de arte e outros experimentalismos adquiriram naturalmente seu status e seu reconhecimento inato.

Marcelo Ferreira: Acho que pode sim mudar. Mas eu não me iludo achando que isso vai acontecer em poucos anos, porque isso está atrelado a algo muito maior: a Educação no Brasil.
A arte precisa de um povo educado para a apreciar. E o brasileiro, infelizmente, em sua maioria, é um povo mal-educado para apreciar ou entender qualquer tipo de arte. A escola e a casa do brasileiro não o preparam para ser um apreciador de arte. Todo o sistema educacional do País, público ou privado, negligencia o ensino de artes e a cultura em geral. Então fica difícil criar um público consumidor em larga escala, que vai pegar uma HQ na mão e reconhecer aquilo como um produto cultural. Por causa dessa pobreza de formação é que o brasileiro em sua média encara os quadrinhos como um produto de entretenimento infantil, algo menor e sem muita importância. Temos uma (heróica) produção maior de HQs hoje, o que põe o produto mais na vitrine, mas é uma Educação melhor que vai fazer o comprador parar na vitrine e levar pra casa.

Maurício Muniz: Acho que isso já mudou muito. Em parte, porque muitos dos fãs de quadrinhos dos anos 80 e 90 tiveram a sorte de pegar um momento muito especial, onde os quadrinhos começaram a ficar mais adultos e, por isso, esses leitores continuaram a ler os quadrinhos já que as histórias acompanharam a maturidade que atingiram. E hoje, com os quadrinhos chegando às livrarias, um novo público vem sendo atraído para ele e tem descoberto obras maduras e premiadas que já ganharam prêmios importantes da literatura, como o Pulitzer.
O preconceito com as HQs ainda vai durar um bom tempo, mas o cenário já mudou muito e tende a mudar ainda mais. Para melhor, claro.


7- Em suas histórias, você pretende expressar alguma ideologia?

Maurílio DNA: É natural que meus valores pessoais transparecem no meu trabalho, a não ser que seja encomendado e, assim, transmita os valores do meu cliente, como acontece nos quadrinhos institucionais.
Em se tratando de um trabalho completamente meu, pretendo antes de mais nada divertir o publico, assim ele se sentirá atraído pela obra. Meus valores serão transmitidos naturalmente e, eventualmente, posso disseminar uma idéia e plantar uma semente graças à capacidade comunicativa e didática dos quadrinhos.
Não fico necessariamente me prendendo à vontade ou necessidade de passar uma ideologia. Para mim, o quadrinho tem que ser gostoso de ler, interessante e bonito. O resto é apenas complemento.

Marcelo Ferreira: Não, nenhuma. Acho artista ideólogo demais, chato. Quero que minha arte sempre sirva pra entreter, informar, divertir, passar o tempo e deixar a vida mais bonita.  Ideologia é na mesa do bar, para poucos.

Maurício Muniz: Não. A não ser a de que, sim, os quadrinhos são obras muito importantes e significativas para o mundo contemporâneo e que a cultura, em suas várias formas, é o caminho para uma vida melhor. Putz, fui pedante agora, não? Hehehe!


8- Como é lidar com o público fã de quadrinhos?

Maurílio DNA: Como artista um dos meus objetivos é inspirar as pessoas assim como meus ídolos me inspiraram. Quando vejo essa reação de admiração me sinto satisfeito. Nem todos os fãs são convenientes e respeitadores, ainda mais crianças e jovens que, hoje em dia, se mostram bem mal educados. Mas, no geral, rola um respeito. Se não forem os fãs, nosso trabalho passaria despercebido.
Alguns fãs, especialmente os chamados "otakus", os realmente fanáticos por mangás e desenhos japoneses, podem ser extremamente preconceituosos, críticos, inconvenientes e até mesmo ofensivos. Contudo, procuro filtrar essas críticas e tentar enxergar algo de construtivo. Caso não encontre, entra por um ouvido e sai pelo outro.

Marcelo Ferreira: É legal. É legal falar com gente que aprecia o que você faz e falar de quadrinhos. Às vezes só é que aparece um fã mais nerd e cheio de perguntas, mas isso é normal.
E os radicalismos e "xiitismos" de certos fãs eu simplesmente ignoro.

Maurício Muniz: O público de quadrinhos é um dos mais exigentes que existe, exatamente porque são pessoas de mentalidade ampla e que são expostas constantemente a novos conceitos e ideais. É um público com um senso crítico muito grande e que reclama muito, até porque amam os quadrinhos. Às vezes lidar com o público de quadrinhos pode ser assustador, mas também é muito recompensador.


9- Quais são seus futuros projetos?

Maurílio DNA: Atualmente estou envolvido na produção de uma revista que publica um mangá de minha autoria, junto com um parceiro roterista. Usamos um modelo de publicação até agora inédito no Brasil e, dessa forma, tentamos criar algo novo e nos posicionar como pioneiros no mercado. O próximo passo é manter a liderança, o que será conseguido com trabalho duro e evolução constante. Pretendo me dedicar a isso por um bom tempo.
Acredito que, com essa linha de pensamento, provoquemos um aquecimento do mercado e contribuamos para que novos leitores engordem as fileiras, causando uma expansão nas vendas, bem como promovamos o aumento da produção e da quantidade de publicações do gênero. Mas é um plano com resultados de médio a longo prazo.
Depois de ganhar alguns prêmios e ser consagrado melhor mangaká (desenhista de mangá) do Brasil, quero dominar o mundo, Hahahhha! (Brincadeira).

Marcelo Ferreira: Continuar desenhando quadrinhos! (risos) Hoje estou trabalhando com a Ape Comics americana e sei que vou ter outros projetos além do Richie Rich. É difícil saber com muita antecedência, então isso é tudo o que eu consigo falar mesmo.

Maurício Muniz: Continuar a editar quadrinhos legais, do Brasil e do exterior, publicar algumas HQs que tenho escritas - algumas já sendo desenhadas - e continuar a viver do meu trabalho com quadrinhos e cultura pop.

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Você pode conferir trabalhos dos professores Marcelo Ferreira, Maurílio DNA e Emerson Penerari em suas galerias no site DeviantArt:
http://marcferreira.deviantart.com/gallery/
http://mauriliodna.deviantart.com/gallery/
http://penerari.deviantart.com/gallery/

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