segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Entrando no mundo dos quadrinhos - Parte 3

O texto a seguir foi escrito pelo artista Dan Panosian em seu diário no site DeviantArt, e você pode ler o original em inglês aqui: http://urban-barbarian.deviantart.com/journal/Breaking-Into-Comics-Part-Three-223342663
O texto foca mais nos quadrinhos americanos, mas com certeza tem várias dicas interessantes para desenhistas de mangá e artistas em geral.

Veja as outras partes do texto aqui: 
Parte 1


Entrando no Mundo dos Quadrinhos

Parte Três: Apresentando suas amostras

OK, já discutimos que para entrar no mercado das revistas em quadrinhos (ou qualquer mercado baseado em arte, verdade), é necessário ter um auto-consciente olho crítico e, em geral, você não consegue simplesmente desenhar de 3 a 6 páginas de quadrinhos pela primeira vez e com isso arranjar um trabalho com as melhores editoras. Mesmo que isso soe bastante razoavelmente, alguns artistas não entendem que você precisa engatinhar no começo da sua carreira de quadrinista.

Coloquemos da seguinte maneira: você talvez queira ser um advogado. Talvez tenha recebido notas altas na faculdade e se considere muito inteligente. De fato, você pode ser muito inteligente, mas isso não quer dizer que passará no exame da Ordem dos Advogados do seu estado (ou país, etc). É verdade que você não precisa cursar uma faculdade de Direito para ser um advogado. Mas precisa passar no exame. Então, tecnicamente, se por algum milagre você estudou sozinho para passar, sim – você pode ser um advogado. Mas a maioria dos escritórios de advocacia quer contratar um advogado com diploma. Isso quer dizer, para eles, que você trilhou todos os caminhos de base e conhece o básico de tudo. Para sua sorte, você não precisa de um diploma de arte para ser um artista de sucesso. Mas você deve desenvolver suas habilidades artísticas para se tornar uma opção válida aos olhos dos leitores e, mais importante, dos editores.

Depois de ler a Parte Dois, você sabe que é provavelmente necessário começar de baixo e ir construindo seu caminho até o topo. Também é provavelmente uma boa idéia cometer vários erros artísticos às custas dos editores menores. Pense neles como a Escola de Gladiadores: eles te deixarão pronto para  aquela grande batalha no Coliseu. Então, vamos fazer com que você seja publicado.

A primeira coisa que você precisa fazer é avaliar o seu nível de talento. Onde você se encaixa na indústria atual? Você precisa olhar para o seu nível de talento realisticamente para responder essa questão. Almejar alto não é ruim, mas se o seu ego não consegue aceitar rejeição, é melhor para você começar com uma editora que produza livros e revistas que se encaixem na sua habilidade atual. Lembre-se, pense nisso como um campo de treinamento. Você talvez até receba propostas de trabalhar em “spec”, que é uma abreviação para “especulação”. Vamos falar disso daqui a pouco. Mas agora digamos que você avaliou suas habilidades e acredita que uma editora chamada Dreadful Comics consideraria contratar você.

O que a Dreadful Comics publica? Esperamos que não seja uma companhia que publica apenas um título. Se for, isso provavelmente significa que eles estão publicando independentemente. Se for esse o caso, o que significa que provavelmente é apenas um escritor e um artista (ou um escritor/artista) publicando o seu próprio gibi, eles dificilmente terão verba para pagar para você desenhar uma revista para eles. Mesmo se você topar desenhar uma revista para eles de graça, provavelmente eles não estarão interessados em correr atrás de todo o trabalho necessário para fazer os seus sonhos virarem realidade. Então, você tem de encontrar uma editora de quadrinhos que tenha pelo menos alguns títulos em catálogo.

Imagine que essa editora se chama Capital Comics. Eles publicam pelo menos 5 títulos por mês. Alguns são apenas minisséries, mas eles têm alguns títulos correntes, e precisarão encontrar novos artistas para eles, acredite em mim. Pequenas editoras sempre precisam de novos talentos porque muitos de seus artistas melhoram e seguem atrás de um trabalho mais lucrativo. Ou, em alguns casos, eles contratam um artista que não consegue entregar suas páginas a tempo. Perder prazos causa um efeito dominó que custa dinheiro às editoras, porque os distribuidores também têm prazos para a entrega das revistas. Multas e outros custos levarão uma editora pequena (ou até uma grande) à falência. Então, você sempre encontrará oportunidades em uma pequena editora. Talvez não em absolutamente todas, mas se você avaliou bem o seu talento, você estará no caminho certo para uma carreira nos quadrinhos. Então, agora você encontrou uma editora: precisará desenhar algumas páginas de amostra. Eu sugiro escolher um título do catálogo deles que você consegue se enxergar desenhando e bolar uma história curta, de 5 páginas mais ou menos, que incorpore os personagens daquela revista. Não consegue pensar numa história? Vamos lá, tente! Tudo bem, por alguma razão, mesmo que você seja criativo o suficiente para desenhar quadrinhos, decidiu que não consegue escrever... beleza. Faça o seguinte: encontre um roteiro de cinco (ou seis, ou oito, por aí) páginas com, digamos, o Batman ou algum outro personagem, e adapte a história para o personagem deles. Suas amostras não precisam estar letreiradas, mas precisam parecer que contam uma história.

Agora, já que você estudou esse meio e está familiarizado com layouts de páginas de quadrinhos, já sabe que quer mostrar variedade nelas. Mostre pessoas “normais” nas suas páginas, não só super-heróis ou a linda detetive; isso é muito importante. Talvez você não precise de mais do que um quadrinho mostrando alguns passantes reagindo a uma ação ou situação que você está desenhando. Mas mostre para o editor que você pode desenhar todo tipo de gente e de coisas. Você quer mostrar o exterior de um prédio (ou prédios) e o interior de um escritório ou sala onde a história se passa (não precisa me interpretar literalmente: se sua história se passa num navio, você vai querer mostrar o exterior do navio na água, e suas cabines, etc). Mostre variedade. Desenhar só os heróis musculosos não será bom para suas amostras. Mostre o máximo que a história permitir e que suas habilidades agüentarem.

Talvez você tenha centenas de desenhos que quer submeter, (em pessoa, por correio ou e-mail) mas não faça isso. Exagero nunca é bom. Inevitavelmente, se você tem centenas de desenhos ou páginas de amostras isso significa que eles variam em termos de qualidade. Você só quer mostrar o seu melhor trabalho. E você não quer mostrar tanto assim, porque quanto mais enviar, mais chances eles terão de ver algo que não gostem. Deixe-os querendo mais. Pra ser sincero, se desenhar 5 boas páginas, é tudo de que você precisa. Talvez colocar uma suposta capa e fechar em 6 páginas, mas isso deve bastar. Se quiserem ver mais, isso será um bom sinal. Peça-lhes um roteiro-teste. Significa que você está estabelecendo comunicação.

Reiterando, você nunca precisa mostrar mais do que 5 a 10 páginas para um editor ou artista em uma convenção. Ninguém quer realmente ver mais do que isso. Já é o suficiente para um editor avaliar seu talento e te passar um trabalho.

E sobre incluir trabalhos que não sejam páginas de quadrinhos? Bem, pensemos sobre isso por um momento. O que exatamente eles estarão contratando você para fazer? Desenhar personagens posando sem cenário? Retratos? Não. Eles te contratarão para fazer páginas de quadrinhos. Então porque vão querer ver desenhos que poderiam fazer parte de um sketch book? Não vão, então não desperdice o tempo deles. Editores são espertos o bastante para saber que, se você consegue desenhar uma página de quadrinhos, consegue produzir uma única imagem para uma capa.

Com as suas páginas de quadrinhos prontas para serem mostradas, faça cópias boas e limpas delas ou as escaneie. Mande-as por e-mail ou por correio para o editor para quem você deseja trabalhar. Nunca enviem originais. Se suas páginas forem abrangentes e você conseguir bolar um herói genérico para preencher sua história, você poderá enviá-las para vários editores de uma só vez. Excelente! Mantenha o e-mail de introdução curto e gentil. Apresente-se e vá direto ao ponto. Sem contar a história da sua vida, sem dizer nada do tipo “Eu quero tanto fazer isso!”, não. Seja profissional e deixe o seu trabalho falar por você. Se você estiver enviando suas amostras por e-mail (imaginando que você já tenha conseguido o endereço eletrônico do editor, obviamente), certifique-se de que os arquivos não estejam muito grandes. Eu sei que você tem orgulho do seu trabalho, mas não mande arquivos gigantes. Nada maior do que 150 DPI é necessário (na verdade, 72 DPI já deve ser suficiente). Na visualização em 100%, as páginas não precisarão de muita rolagem para serem vistas por inteiro.

Menos é mais quando se trata de amostras de arte.

No próximo post, discutiremos a opção de publicar independentemente e de trabalhar com especulação. No seguinte, falaremos sobre o que fazer quando um editor concorda em te passar trabalho.

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