segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Entrando no Mundo dos Quadrinhos - parte 5


O texto a seguir foi escrito pelo artista Dan Panosian em seu diário no site DeviantArt, e você pode ler o original em inglês aqui: http://urban-barbarian.deviantart.com/journal/Breaking-Into-Comics-Part-Four-222995756

O texto foca mais nos quadrinhos americanos, mas com certeza tem várias dicas interessantes para desenhistas de mangá e artistas em geral.

Veja as outras partes do texto aqui: 
Parte 1


Entrando no mundo dos Quadrinhos


PARTE CINCO: Seu primeiro trabalho

Vamos imaginar que todo o seu trabalho deu resultado e uma editora lhe deu um roteiro para desenhar ou uma página para arte-finalizar. Talvez seja só uma história de fundo, não importa. Você tem um trabalho.

Naturalmente, você vai querer fazer seu melhor trabalho para impressionar bastante o editor e os fãs, mas você talvez se sinta um pouco intimidado ou pressionado na hora de trabalhar. Claro, isso é bastante natural. É como a sua primeira vez rebatendo num jogo de beisebol. É claro que você praticou e já rebateu bolas antes. Nesse caso, suas amostras eram a sua prática. Mas agora tem gente assistindo e seu parceiro de jogo não é o treinador ou seu amigo. Agora, é bastante diferente.

Independente disso, é hora de desenhar. Minha sugestão é começar imediatamente. Se você for um desenhista, isso significa ler o roteiro e talvez fazer alguns rascunhos e miniaturas. Convença-se de que são idéias iniciais e não rãs cunhos finais. Se você for um arte-finalista, comece pegando os gabaritos e desenhando figuras como ovais e círculos. Por enquanto, você estará fazendo coisas básicas que não requerem muita habilidade artística ou muito tempo.

Em ambos os casos, começar dessa maneira cumpre duas coisas: um, sem perceber, você está começando. É o mais difícil de fazer em quadrinhos. E dois, você estará montando uma boa base para o dia seguinte. Quando voltar às páginas, já terá dado a partida. Já há trabalho feito sobre o qual continuar, e você já derrubou a primeira e mais assustadora barreira. Começar devagar em cada elemento faz do processo algo bem mais fácil. Antes de perceber, já terá terminado. Cada passo não irá cansá-lo ou derrubá-lo. Separando o processo em partes e começando imediatamente, tirará todo o medo e a pressão dos seus ombros.

Voltemos um pouco no caso do desenho a lápis. Estamos no segundo dia e você está lá, encarando seus esboços iniciais. Talvez eles estejam quase vagos demais para usar. Tudo bem. Mas você já tem idéias para a narrativa na sua frente. Existe uma técnica divertida que eu gosto de usar quando faço arte-final, mas que pode ser usada também no estágio do desenho. Quantas vezes você já fez uma crítica sobre o trabalho de alguém? Mesmo que você nunca tenha se dirigido formalmente a outro artista em relação ao seu trabalho, você provavelmente fez isso na sua mente. Pode ter pensado “pessoalmente, eu acho que esse quadro funcionaria melhor desse ângulo”, ou “isso não funciona, você deveria tentar isso...”. Bem, tente fazer isso com o seu próprio trabalho. Finja que esses rascunhos foram desenhados por outra pessoa e que você precisa “ajudá-la”. De repente, seus olhos se abrem e é mais fácil ver maneiras de melhorar suas idéias/designs/composições iniciais. Confie em mim, isso funciona. Eu uso essa técnica quando vou arte-finalizar meu próprio lápis: imagino que a página foi desenhada por algum iniciante que precisa de ajuda em todos os aspectos de seu trabalho, e vou à luta. Magicamente, consigo reparar erros (infelizmente, não todos...) e a página se torna muito melhor do que se eu me mantivesse fiel aos meus rascunhos originais.
 
Esse processo funciona porque permite que você “saia da caixa”: você se afasta um pouco do problema do problema para observá-lo sob um novo olhar. Você retira a pressão de si mesmo e analisa a arte como se você fosse o professor, e isso parece mais seguro. Como resultado disso, você verá uma significativa melhora no seu trabalho. O primeiro passo é rascunhar; o seguinte é refinar esses rascunhos. Depois, é rascunhar na página definitiva os elementos-chave da composição. Aí, começar a definir formas e figuras centrais. E aí continuar a refinar formas e elementos até estar satisfeito com a página. E assim, de pouco em pouco, sem sofrimento, você completa uma página ou série de páginas.
Nota extra: não estoure seu prazo. Isso, acima de tudo, é essencial. Entregue o trabalho em tempo. Como um trabalho numa loja ou restaurante, se você se atrasar, é despedido. Isso também se aplica a revistas em quadrinhos e mesmo assim muitos artistas acabam atrasando. Editores dão valor a boa arte, mas também a artistas que entregam seus trabalhos no prazo. Porque se você não o fizer, isso custará à companhia (impressão, cronograma, compromissos de venda, etc). Se a companhia não cumprir seus objetivo de entrega, não consegue ficar no negócio. Se eles não ficarem no negócio, seu editor perderá o emprego. E para o editor, o trabalho e a vida dele são mais importantes que o seu. Desculpe, mas é como o mundo funciona.

Legal, você terminou suas páginas... e agora? Obviamente você quer entregá-las, mas digamos que não haja promessa concreta ou indicação de um trabalho futuro. O que fazer? Você precisa começar a mostrar seu trabalho ao mundo. Não dependa apenas de um editor se você não tem outro trabalho já na fila. Você precisa cair na estrada de novo, da mesma maneira que fez para conseguir esse primeiro trabalho. A boa notícia é que agora você tem algum trabalho publicado a seu favor. Novas amostras, que provavelmente são consideravelmente melhores do que as que você usou para conseguir seu primeiro serviço.

Até você ter garantido um acordo sólido de trabalho, você deve continuar procurando editores e editoras da mesma maneira que fez inicialmente. Não existe um grupo secreto de editores que marcam encontros e ficam imaginando se você tem trabalho ou não. Eu conheço profissionais que não conseguem trabalhos fixos e ficam se perguntando porque o telefone deles não toca. Eles imaginam que há uma reunião semanal de editores e que eles falam sobre todos os artistas que já trabalharam para suas companhias, acompanhando seu trabalho. Obviamente não há negócios que funcionem dessa maneira, mas parece mais fácil imaginar que se uma editora já contratou seus serviços uma vez (ou várias), ela o mantém “em seu sistema”. O sistema recompensa aqueles que correm atrás dele. Você não vai conseguir um pedaço de torta na fila da lanchonete, a não ser que peça por ele. Ele está lá, mas o atendente atrás do balcão não consegue ler a sua mente, e não vai despejar comida na sua bandeja se você não disser o que quer. Você precisa pedir.

Então peça. Mande amostras. Se não conseguir um novo trabalho baseado no seu último, faça mais amostras. Melhore. Você melhorou o suficiente para conseguir aquele primeiro trabalho, agora é hora de melhorar ainda mais para conseguir mais um. Acredite em mim, a cada trabalho que completar, você melhorará drasticamente. Se isso não acontecer, você não tem tanta paixão por essa mídia como imaginava. Há tanto a aprender e melhorar em todos os estágios e níveis da arte, isso nunca acaba. Só a sua paixão por aprender e crescer pode acabar.

Boa sorte, bárbaros. Derrubem esse portal.

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