terça-feira, 6 de novembro de 2012

Quadrinhos: Nona Arte



Eu adoro ler. E leio de tudo. E muita gente me encontra lendo quadrinhos. Aposto que a maioria pensa “Esses artistas são todos vagabundos, mesmo!” Isso porque a maioria das pessoas não sabe realmente o valor que uma boa história em quadrinhos tem. E olhe que daqui pra frente não vou me referir à qualidade narrativa e textual, méritos de muitas HQs por aí. Vou falar só das ilustrações.
Quadrinho é arte sim! E é irritante a mania das pessoas em dizer que isso é coisa de criança, de adolescente. Mania, não, corrijo: preconceito puro e simples! Fazer quadrinhos não é só colocar desenhos em quadros e enfiar uns balões para o diálogo. A arte dos quadrinhos é bem mais que isso, pois exige refino de traço e de construção de personagem. Exige maestria em arte-final. Exige estilo.

  "AsiloArkham", arte de Dave McKeen

Para comprovar o que eu digo o leitor pode remeter-se ao clássico dos quadrinhos. Sim, refiro-me a ele, o imbatível morcego. Batman é um herói que tem em suas histórias algumas das melhores artes já vistas. Para citar apenas alguns poucos exemplos da arte que acompanha o cavaleiro das trevas você pode ler Gritos na Noite, publicado em dois volumes pela Editora Abril em 1990. É um clássico. A arte manchada de Scott Hampton é maravilhosa e denota técnica e sentimento. Nos quadrinhos em que não há palavras, a imagem fala por si só. Não é qualquer um que consegue isso.
Em Asilo Arkham, publicado pela mesma Abril no mesmo ano que Gritos na Noite, as ilustrações de Dave McKean são pura criatividade e técnica, misturando estilos, adicionando colagens ao trabalho com o pincel e dando um clima realmente sombrio, e por que não dizer, maléfico, à história. Ainda falando de Batman não poderia deixar de citar Guerra contra o Crime, publicado também pela Abril em 2000. A arte é estupenda, irrepreensível. E o homem responsável pela ilustração tem um nome reconhecido em todo o mundo, conhecido por sua malícia com o pincel, aclamado em sua destreza pra criar cenas e desenhos. Alex Ross não é apenas um homem, ele é o deus dos quadrinhos. Para muitos, ninguém jamais conseguiu superá-lo e poucos puderam alcançá-lo.

 "Drácula", arte de J.J. Muth

É difícil de imaginar uma história em quadrinhos pintada em aquarela, não é mesmo? Para quem está inserido no universo das HQ não é. Drácula: uma sinfonia de pesadelos aos luar é uma graphic novel toda ilustrada em aquarela. A impressão é ótima e pode-se ver a textura do papel através das manchas de Jon J. Muth. Na minha opinião, um dos trabalhos mais lindos que já vi em HQs. Foi publicada pela Abril em 1989, então pode ser bem difícil de achar, e talvez cara. Mas se você encontrar, compre. Vai ver que vale a pena.

 "Sandman", arte de Yoshitaka Amano

Poderia ainda citar o fabuloso italiano Milo Manara, que faz seus leitores delirarem com seu traço erótico, sensual e leve. Os livros e HQs de Sandman, de Neil Gaiman, menção especial para Os Caçadores de Sonhos, com ilustrações belíssimas do japonês Yoshitara Amano (Conrad, 2003), um dos meus favoritos. Outro italiano digno de crédito é Paolo Serpieri, que faz uma arte riscada e definida, bela, exótica e sensual. Eu poderia ainda citar os recém re-editados Livros da Magia (Ilustrações de John Bolton – Ópera Gráphica, 2002) e Orquídea Negra (Ilustrações de Dave McKean - Ópera Graphica, 2002), o clássico e eletrizante Às Inimigo (editado pela Abril em 1990 – compre, compre, compre! É uma obra de arte!) e ainda Tanque and Lash (Via Lettera, 2000), com os desenhos inovadores e levíssimos. E isto seria apenas o começo.

"Vagabond", de Takehiko Inoue

Nos últimos tempos as bancas brasileiras têm conhecido a invasão dos mangás, o comics japonês. Há pouca coisa colorida no mangá, mas os desenhistas da área não economizam no bico de pena, com espetáculos visuais como Vagabond que a Conrad editou há muitos anos. Fazem páginas maravilhosas em nanquim, usando traços leves e delicados, como XXXHolic, editado pela JBC, ou qualquer outro trabalho do estúdio CLAMP. Quando há páginas coloridas nos mangás, esteja certo de que houve uso de tinta e muita malícia na técnica. O resultado? Um belíssimo colorido de tons suaves que se misturam aos contornos definidos do desenho, criando algo único. Se você quer realmente avaliar a capacidade dos japoneses com um bico de pena, tente GON (Conrad, 2003) de Masashi Tanaka. Além de um mestre na arte do nanquim Tanaka faz uma história sem texto e dá uma aula de narrativa seqüencial.
Estes poucos exemplos podem parecer distantes para quem não está inserido no mundo dos quadrinhos, mas são peças verdadeiras de uma arte plástica nem sempre reconhecida com o devido crédito. Assim, quando der uma passadinha na banca ou em alguma loja especializada, dê uma olhada. É verdade que nem tudo é bom e que há muita porcaria no mercado. Mas você pode se surpreender folheando uma HQ.

 "XXXHolic", do Studio CLAMP


Texto: Gisela Pizzatto

Um comentário:

Emerson disse...

Muito bom o texto! Para quem ainda está dando os primeiros passos no universo da Nona Arte, sugiro que anote os nomes dos álbuns citados e busque em sebos (físicos e virtuais) ou fiquem de olho nas reedições!