quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Brasileiros Publicam Graphic Novel na Irlanda


São 80 páginas coloridas que contam a história da mulher pirata mais famosa da História.
“Gráinne Mhaol” conta com roteiro e cor de Gisela Pizzatto e arte de Bruno Büll, ambos da Ânima Academia de Arte.

Lançada em Julho, a graphic novel tem o selo da editora irlandesa Cló Mhaigh Eo e está disponível apenas em irlandês.

Confira abaixo uma breve entrevista com estes dois artistas:


1-   Fale-nos um pouco sobre vocês: Nome, profissão e suas influências como artistas.

Gisela Pizzatto: trabalho como ilustradora e professora de mangá.
Meu nome é Bruno Büll, e trabalho como ilustrador e professor de História em Quadrinhos e Perspectiva na Ânima Academia de Arte. Acho um pouco difícil definir as minhas influências como artista, gosto de muita coisa, e especialmente dentro dos quadrinhos sempre procuro conhecer coisas novas pra mim. Alguns nomes que nunca saem da minha lista de favoritos são David Mazzuchelli, Frank Quitely, Sean Gordon Murphy, Moebius, Jeff Smith, Jorge Zaffino, Bill Watterson, Frank Frazetta... se deixarem, eu falo disso o dia inteiro.
2- A Graphic Novel "Gráinne Mhaol" foi lançada este ano na Irlanda em Gaélico. Como foi o processo inicial, desde a ideia, a produção e o contato com o editor e a assistente de arte-final Laís Bicudo?
Gisela: Esta história vem sendo preparada desde 2010, que foi quando eu e o Bruno firmamos a parceria para a história. Com as páginas de amostra procuramos um editor na Irlanda, já que a história se passa lá e a personagem principal é uma figura histórica do país. Eles gostaram da ideia e começamos a produção, que acabou no fim de 2012.
Bruno: Foi da Gisela que partiu a ideia de contatar um editor irlandês para mandarmos as amostras que tínhamos. Era um desejo dela lançar a história por lá antes, visto que a HQ se passa naquele país. Nossas conversas iniciais foram no sentido de combinar e definir o estilo em que faríamos a arte, e tudo se desenvolveu a partir daí. A ideia era que eu fizesse toda a arte-final a nanquim, além dos desenhos, mas meu ritmo (especialmente no começo) acabou sendo bastante lento, e uma vez combinada uma data para a finalização do trabalho houve a necessidade de procurarmos alguém para arte-finalizar meus lápis. Foi aí que a Laís entrou na história. Nós já conhecíamos a qualidade do trabalho dela, e só fizemos um pequeno teste pra ver se seu traço ia combinar com o meu. Das 80 páginas da história, as primeiras 20 foram finalizadas por mim e todas as outras têm o nanquim dela.
3- Como foram feitas as pesquisas para que o retrato da época da rainha pirata fosse fielmente reproduzido?

Gisela: Para o roteiro a pesquisa foi feita basicamente pela internet: ambientação, fatos históricos, locações...
 Bruno: Pois é, a Internet foi a principal, senão a única, fonte. Pesquisamos bastante, e nosso editor ajudou muito nesse sentido. A maioria das conversas que tive com ele foi justamente para confirmar se as imagens que eu planejava usar de referência para cenários, construções e roupas (entre outras coisas) estavam corretas em relação à época e local. 

4- Vocês se inspiraram em pessoas reais para o desenvolvimento dos personagens. Usaram referências de fotografias  para rostos e cenários?

Gisela: Para os cenários usamos fotos de lugares reais.
Bruno: Para os personagens mais importantes, normalmente eu e a Gisela conversávamos algo como “imaginei esse personagem parecido com tal pessoa”, às vezes um ator ou atriz, e isso ajudava bastante a criar o tipo do personagem. Para a rainha inglesa Elizabeth I, e mais um ou dois que aparecem ao longo da história, usamos imagens de retratos pintados na época.
Para cenários abertos, campos e afins, usamos muitas fotografias. Para as construções, às vezes usamos fotos e às vezes, no caso do lugar ter sido demolido há séculos, pinturas e desenhos antigos. Esses foram os que deram mais trabalho para encontrar.
5- Ainda é cedo para sabermos da aceitação e do alcance da publicação na Europa, mas existe a possibilidade do material sair em outros idiomas mais abrangentes, como o inglês ou mesmo o português?
Gisela: A editora pretende lançar a história nos EUA, portanto em inglês, mas isso depende de uma série de fatores, como vendagem, por exemplo, e tantos outros. Mas ainda é cedo pra saber. Vamos torcer!
Bruno: E eu me junto à torcida!
6- É possível saber como é o mercado irlandês de quadrinhos, e se já existe o interesse para uma nova parceria?
Gisela: É um mercado novo para nós, não sabemos como “Gráinne Mhaol” vai vender. Ainda não temos nova parceria acertada, mas tudo é possível!

7- O que vocês acham dos quadrinhos produzidos no Brasil? Podemos esperar uma aceitação maior por parte do público e das editoras um dia?

Gisela: Acho que tem coisas boas e ruins sendo publicadas, no fim das contas é o público que acaba filtrando o que é legal e o que não é. Mas acho que as editoras poderiam fazer um trabalho mais sério com relação aos artistas nacionais, dar mais incentivo e crédito para quem faz coisas legais mesmo.
Bruno: Acho que muitos tipos de quadrinhos têm sido produzidos no Brasil, mas ainda grande parte disso é feita de forma independente, impresso por conta própria ou publicado na internet. Há muita coisa legal, mas muita coisa que não presta também, como em qualquer área artística. As editoras nacionais têm dado cada vez mais abertura para os quadrinhos, especialmente com a popularização do termo “graphic novel”. Até algumas grandes editoras, como a Companhia das Letras, por exemplo, tem publicado autores nacionais, mas o volume ainda é bem pequeno. Mesmo a Argentina, para falar de um exemplo próximo, publica muito mais de sua produção própria de HQs. Ainda é difícil falar de um “mercado de quadrinhos nacional” propriamente dito, e conseguir viver de desenhar e publicar quadrinhos no Brasil ainda é para BEM poucos.
8- Se alguém se interessar em adquirir a Graphic Novel "Gráinne Mhaol", como deve proceder?
Gisela: Por enquanto para nós está apenas disponível para compra no site da editora: http://www.leabhar.com/shop.htm
9- Quais os futuros projetos artísticos de vocês?
Gisela: Nossa, são muitos. Tenho um mangá de 34 páginas que está sendo finalizado e também estou acabando um livro infantil de ilustração. Esses são projetos pessoais, mas também tenho trabalhado com o autor americano Matt Snee para publicação de livros ilustrados nos EUA.
Bruno: Tenho um projeto pessoal de uma HQ longa ainda em fase de planejamento, mas nada fechado. Estou preparando material para uma antologia de quadrinhos regional, e realizando trabalhos como freelancer para clientes variados, mas isso já fica fora da área de quadrinhos.
10- Muito obrigado pela entrevista. Poderiam dar algumas dicas para quem deseja seguir nesse ramo?
Gisela: Acho que é o de sempre: muita dedicação, estudo e, principalmente, correr atrás daquilo que você quer, persistir, persistir e persistir.

Bruno: Não há muito como fugir disso: estudar muito, produzir sempre material novo para poder mostrar o seu melhor, e investir seu tempo em divulgar seu trabalho para o mundo, especialmente nos campos onde você deseja se inserir.



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