quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Tekkonkinkreet


Esta semana a professora Gisela Pizzatto dá uma dica de anime pra quem curte trabalhos bem feitos e cheios de cor: Tekkonkinkreet. O mesmo estúdio de animação que criou Animatrix apresenta este visualmente incrível anime baseado no popular mangá de Taiyo Matsumoto, Preto e Branco.


Título esquisito
Não sei o que é mais esquisito nesse título: tentar ler essa palavra ou tentar entender o que significa. Muito bem, tente agora: "Tekkin Konkurito". Muito mais fácil, né? Bom o título significa “concreto reforçado por aço” e a variação do título remete à pronuncia errada de uma criança.
A história conta a vida de dois irmãos adolescentes Kuro e Shiro (do japonês, “preto” e “branco”) na Cidade do Tesouro, onde a vida pode ser doce ou brutal. Os dois personagens principais são meninos de rua, abandonados pela sociedade, órfãos e que dão o melhor de si para não serem engolidos pela solidão ou pelas dificuldades. Mas a história não é nem de longe triste ou maçante, Tekkonkinkreet é emocionante, tenso e tem muita luta!


Mangá e Anime
A melhor parte de um bom mangá é quando fazem um bom anime com ele. Fato. E foi bem isso que aconteceu com este mangá de Taiyō Matsumoto, lançado entre 1993 e 1994 pela editora Shogakukan na revista Big Comic Spirits. O mangá chegou a sair aqui no Brasil, com edição “de luxo” (capa mais durinha, folha de papel grossa decente, custando os olhos da cara) pela Conrad, em três volumes. Agora é uma raridade achar esses volumes, quem comprou, comprou... O filme, que foi lançado em dezembro de
2006, cobre mais o segundo volume do mangá.
A história acontece na fictícia Cidade do Tesouro, um bairro decadente tanto econômica quanto socialmente de uma metrópole, onde Kuro e Shiro “dominam” o pedaço e são conhecidos como “os gatos”. A história abrange acontecimentos do submundo, que acontecem em qualquer cidade grande e que passam desapercebidos pelos olhares da maioria das pessoas, que não quer nem de longe se envolver nesse mundo. Kuro e Shiro mostram por que são os donos do pedaço – são rápidos e ágeis como gatos e sabem lutar pra valer-, mesmo sendo apenas dois adolescentes: Kuro tem 13 anos e Shiro apenas 11.
A coisa fica feia mesmo quando a Yakuza (a máfia japonesa) tenta tomar conta da Cidade do Tesouro. É a hora dos garotos provarem a si mesmos porque devem ficar juntos e também é o momento de Kuro entender mais sobre si mesmo. Não, os nomes dos garotos não foram escolhidos de maneira casual, eles têm a ver com o Yin e o Yang e sobre o nosso lado negro. Mas eu não vou estragar a história, então, vá assistir.


Yin e Yang
No Taoísmo (tradição filosófica e religiosa chinesa), o Yin e Yang são o princípio da dualidade, como o bem e o mal, o quente e o frio, e assim por diante. Isso quer dizer que segundo esta filosofia o universo seria composto por duas forças complementares e do equilíbrio dinâmico que surge entre elas.
Assim, o Yang é o princípio ativo, diurno, luminoso e quente – ele é o Shiro (“branco”) da nossa história. Já o Yin é o princípio passivo, noturno, escuro, frio – o Kuro (“preto”) de Tekkonkinkreet. Pra quem gosta de simbologia, estes dois princípios também são representados na cultura oriental pelo dragão (Yin) e o tigre (Yang) representando os opostos e acho que todo mundo já viu aquele círculo dividido em partes iguais, uma preta e uma branca, em forma de gotas retorcidas, com uma bolinha da cor oposta dentro de cada parte, né? Pois então, esse é o diagrama Taiji, e ele representa bem nossos personagem, pois mostra a integração entre os dois lados, o escuro e o claro: o lado escuro possui um ponto claro e o claro possui um ponto escuro. Ou seja, não existe só bem e mal, preto e branco: todas as coisas estão em equilíbrio pois possuem dentro de si um pouco daquilo que as complementa.
E é aí que o anime fica interessante, pois quando Kuro atinge um ponto extremo de sua personalidade, o que se manifesta dentro dele é uma centelha de vida vinda de Shiro, e isso faz com que ele volte a se centrar e não tender totalmente para (literalmente) “o lado negro da Força”. E assim o equilíbrio é restaurado.
Shiro também tem seus momentos sombrios, mas o maior foco da história recai sobre Kuro e sobre o que acontece quando os irmãos são separados.


Realidade na tela
A produção do anime, mais especificamente o diretor Mike Arias, fez questão de que a Cidade do Tesouro parecesse real. Os cenários foram todos (todos mesmo!) pintados à mão por um time de ilustradores incansáveis, que chegaram a fazer cerca de duzentos desenhos para passagens de apenas 2 minutos, todos baseados na cidade onde o diretor morava, nos seus cantos e bares preferidos. Ele fotografou tudo o que gostaria de ver representado no cenário do anime e levou as fotos para a equipe, que transformou a visão do diretor em realidade.
A partir dos desenhos, o time de 3D entrou em ação e fez um tipo de animação pioneira, mesclando o trabalho de ilustração tradicional com a animação digital. Então se a história não te agradar muito (duvido!), a arte e o cuidado da produção dos cenários com certeza vai.



Produção e Prêmios
Michael Arias não é nem de longe japonês, mas fala como um e dirigiu este anime como um. Cansado da vida de técnico em efeitos especiais que levava nos Estados Unidos, o americano embalou suas coisas e foi fazer o que sempre quis: trabalhar e morar no Japão. Depois de 15 anos morando na terra dos seus sonhos, Mike teve a oportunidade de dirigir Tekkonkinreet e seu perfeccionismo e idealismo o levaram a criar uma obra prima.
O mangá acabou ganhando o prêmio Eisner Award (maior prêmio de quadrinhos dos Estados Unidos) em 2008 como melhor edição americana de mangá e a animação Tekkonkinkreet, produzida pelo Studio 4ºC, ganhou em 2006 o prêmio de Melhor Filme do Mainichi Film Awards (concurso anual promovido por Mainichi Shibun, um dos maiores jornais japoneses). Além do prêmio, a animação foi indicada, também em 2006, como “top film” pela revista Artforum (nada mais nada menos que a revista do MoMA de Nova Iorque – pra quem não sabe, o MoMA é um dos maiores e mais conceituados museus de arte moderna do mundo) e em 2008 ganhou mais três prêmios: melhor história original e melhor direção de arte na Ferira Internacional de Animação de Tóquio e o prêmio de animação do ano da Japan Academy.

Michael Arias

Ficha Técnica
Nome: Tekkonkinkreet
Lançamento: Dezembro de 2006
Direção: Michael Arias (produziu Animatrix)
Animação: Studio 4ºC (Steamboy, Animatrix, Detroit Metal City)

*Texto originalmente publicado na revista NeoTokyo*

Nenhum comentário: