quinta-feira, 6 de março de 2014

Processo Criativo, Bloqueio Artístico e esse tipo de coisa...

Depois de me lembrarem que essa semana era a minha vez de escrever pro blog da Ânima, fiquei um tempão pensando no que poderia interessar os leitores. Não sabia mesmo sobre o que escrever, aí me veio na cabeça que todo mundo me pergunta sobre o processo criativo, se eu tenho bloqueio artístico e esse tipo de coisa. Então resolvi escrever sobre isso!

Trabalho da Prof.ª Gisela Pizzatto.
Processo Criativo

Ser artista nem é tão fantástico assim como a maioria das pessoas pensa. Tá bom, vai, é sim. Mas o caso é que somos pessoas como todo mundo, mas temos a percepção mais aguçada, prestamos mais atenção no mundo que nos rodeia. Por isso é bem verdade que ensinar técnicas é bem mais fácil do que ensinar a ser artista.

Assim, o processo criativo começa do lado de fora, quando a gente observa o mundo. As coisas que a gente gosta, músicas, gostos, sons, cheiros, culturas, cores, imagens, enfim. Tudo é material pra criar. Por isso é que a produção de um artista nunca vai ser igual a de outro: o jeito de ver o mundo é sempre diferente, as vivências são outras.

Isso tudo que a gente recebe é processado no cérebro - ou não: nem sempre a criação é uma coisa consciente - e a gente mescla o que recebeu com técnicas, que é o que normalmente aprendemos em uma escola de arte, ou de maneira autodidata, tanto faz.

O importante nessa hora de criar é se manter fiel à sua essência enquanto artista. Isto é, sua arte tem que ter a sua cara. Escreveu Gombrich no seu livro "História da Arte": não existe Arte, existem artistas. Então se te agrada um determinado assunto, você deve explorá-lo. Se te agrada determinada técnica, faça uso dela. Sem medos, sem restrições. Vem alguém e me diz "oh, eu preciso desenhar mais homens, só faço trabalhos com mulheres" etc etc. Ora, eu digo, você não gosta mais de desenhar mulheres? Os trabalhos não estão te agradando? Resposta: não, eu gosto, mas as pessoas vão pensar que eu só sei fazer isso.

Bom, pode parar por aí. "As pessoas vão pensar", bem elas pensam sempre, não importa o que você faça. O importante é você realizar o que te faz feliz.  O resto simplesmente não importa. Algumas pessoas vão gostar, outras não. Nem Michelangelo é uma unanimidade.

Criar é bacana pelo universo que você inventa. Às vezes você faz um trabalho e sente que não conseguiu esgotar o tema como queria. Ótimo! Faça uma série. Não importa de quantos trabalhos. Três, dez, vinte. Tanto faz. A ideia é explorar e criar até se sentir atraído por outra coisa. E aí o processo começa de novo.

Bloqueio Artístico

Ta aí outra coisa que me perguntam sem parar. Art Block. Não, eu nunca tive isso. Não, também não acredito que isso exista.

O que existe são alguns motivos pra você não conseguir trabalhar: cansaço, falta de tempo e esse tipo de coisa. Às vezes é tudo junto. Às vezes você não consegue detectar o que está de parando. "Ah, é bloqueio artístico!" Que chique, né?! Tá, dorme uma noite bem dormida que passa. Garanto.

Se a sua cabeça não está focada naquilo que você está fazendo, ou pretende fazer, não tem mesmo como você trabalhar direito. Os problemas diários ou ocasionais atrapalham. Fora que tem um monte de gente que diz que senta na frente da folha em branco e não consegue fazer nada. Então é porque não tá a fim de desenhar de verdade, oras! Vai dar uma volta, ouvir uma música, aí sim. O artista tem sim que trabalhar segundo a inspiração. Senão não sai nada mesmo. Mas olha só, não estou querendo dizer que tem que ficar esperando a inspiração bater pra poder desenhar. O negócio também é saber correr atrás da inspiração, pesquisar, observar, achar conexões. E isso leva a uma outra coisa também importante.

Tem que ter Fé

Não, não é fé em Cristo, em Alá ou nos Sete. Vamos lá.

Artista tem que sobreviver, né? Então artista também tem cliente pra atender. Cliente que compra trabalhos e que tem certas expectativas.

Normalmente um cliente procura um artista que o agrade, porque, como eu já falei lá em cima, cada artista é único. Dentro desse estilo o cliente vai fazer certas exigências que cabe ao artista atender (ou não). E é aí que entra a fé.

Fazer exatamente o que o cliente pediu, só porque ele está pagando, não é a solução. No fim das contas você vai ter um trabalho que você nem gostou, não curtiu nem fazer, e acaba que até a qualidade fica comprometida, porque você nem acredita naquilo ali que está entregando.
Pra fazer arte tem que ter fé: em si mesmo e na qualidade do seu trabalho. Tem que acreditar naquilo que faz. Pra fazer um negócio imposto, mas que te dê prazer. Então o grande truque é adequar aquilo que o cliente quer com aquilo que você tem pra oferecer, mais a sua diversão. Faça a coisa valer a pena, tente se divertir, gostar do que está fazendo, acredite, tenha fé.

Nada é fácil. E não é mesmo. Ser artista então, menos ainda.

Aprender técnicas, estudar pra ficar bom, saber de anatomia, isso é a parte fácil do processo. É a parte que dá pra ensinar sem problemas. A parte que tem a ver com observar, sentir, criar e fazer o processo ser a criação é que é difícil de ensinar. A maioria dos artistas já vem com isso original de fábrica. Mas eu sempre acho que dá pra ensinar, se não tudo, uma coisa ou outra. Cabe aí a quem está aprendendo entender mesmo que ser artista é isso: é SER. E tentar ver as coisas de um outro jeito.

É isso aí, obrigada pela companhia, a gente se vê depois!

Texto da Prof.ª Gisela Pizzatto.

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