quinta-feira, 8 de maio de 2014

“O Matrimônio da Virgem”, de Rafael, e a Questão do Espaço

O "Casamento da Virgem" (Sposalizio della Virgine: óleo sobre tela, 170 x 117), de Rafael Sanzio, um quadro de 1504, é um belíssimo exemplo de como, a partir do século XV, o espaço aparece representado com o auxílio da perspectiva. No século XV, o espaço passa a ser a própria representação da pintura: o ponto de partida das obras é o espaço.

"Casamento da Virgem", Raffaello.
Fonte:
 http://www.christianrosenkreuz.org/raffaello_spozalizio.jpg
No quadro a perspectiva é evidente. A obra foi claramente inspirada na "Consignação da Chave a São Pedro" e também no "Casamento da Virgem", dois quadros de  Perugino, onde se percebe  que a arquitetura é um elemento principal e definidor do espaço. Rafael foi discípulo de Perugino até o ponto de seus quadros se tornarem muito parecidos com os de seu mestre, porém, todos os antecedentes artísticos de Rafael, e não só sua aprendizagem com Perugino, se situam dentro da poderosa tradição do classicismo do século XV.
"Casamento da Virgem", Perugino.
Fonte: https://peregrinacultural.files.wordpress.com/2012/06/pietro_perugino1448-1523-o-casamento-da-virgem-1503-c3b3leo-sobre-madeira-234-c397-185-cm-museu-de-belas-artes-de-caen-franc3a7a.jpg
Segundo o historiador Bernardo Berenson, a distribuição geral do quadro de Rafael é uma variante do afresco de Perugino, com mesmo princípios e elementos, mas o espírito mudou muito: há um refinamento maior é encontrado no trabalho de Rafael.

Rafael, embora tenha utilizado menor área que Perugino para pintar seu templo, faz com que o edifício pareça maior que o do quadro do mestre. Ele distancia as figuras do prédio e o coloca em um terreno mais elevado, sobre uma escadaria com mais degraus que a de Perugino. Em Rafael, os personagens estão postados como uma frisa na parte da frente da obra, representados simetricamente, tendo ao fundo o templo, de onde vem o ponto de fuga, dando a sensação do espaço. O ponto de fusão da cena é a aproximação das mãos dos noivos (José vai colocar a aliança no dedo da Virgem), sobre o fundo vermelho da roupa do sacerdote, valorizando a figura humana no quadro. O templo, é o elemento dominante da obra, parece assumir em si, um senso esférico e centralizado, toda a imensidão do espaço que o circunda.

No quadro de Rafael, a perspectiva une o mundo sacro ao mundo natural, que é a paisagem. Ao colocar o espaço como elemento fundamental de sua obra, Rafael procura constituir dois mundos que interagem: as figuras estão organizadas por uma linha, aparecem no mesmo plano, e esta linha de frente aparece perpendicular à linha que sai do ponto de fuga, passa pela porta do templo e cruza toda a parte posterior do quadro, dando-lhe uma sensação de equilíbrio.

Os elementos, em o "Casamento da Virgem", são células independentes que se relacionam; assim como as figuras, o espaço é analítico. Assim, Rafael consegue, mesmo tendo sido exageradamente inspirado por Perugino, uma nova maneira de representar o espaço. O espaço torna-se elemento fundamental, delineado pela perspectiva, um espaço analítico e profundamente complexo.

Prof.ª Gisela Pizzatto.

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