quinta-feira, 31 de julho de 2014

RPG parte 2: Quarenta Anos de Dungeons & Dragons

E aí, pessoal, beleza? Bom, em minha última postagem falei sobre RPG (A terceira visita do sempre bem vindo Mark Hein-Hagen ao nosso país, aqui: http://blogdaanima.blogspot.com.br/2014/07/rpg-mark-rein-hagen-no-brasil-pela.html ), e dessa vez ainda falarei sobre o assunto. Depois eu volto a falar de outras coisas, prometo.

Mas meu motivo é válido: Em 2014 o primeiro Role-Playing Game (RPG) do mundo, Dungeons & Dragons, completa 40 anos. Para essa geração dos videogames descartáveis, isso não parece ter tanta importância. Mas para quem tem mais de 30 anos ou é louco por jogos que utilizam a criatividade, a estratégia e a convivência entre amigos ao invés da fria tela de um aparelho tecnológico, essa homenagem é válida. Muita gente conhece o Jogo por nome, ou já jogou alguma de suas edições mais recentes. Mas quem foi que iniciou esse estilo de jogo, e como ele alcançou fama no mundo e no Brasil?


Fonte: http://www.table-warrior.com/wp-content/uploads/2014/01/DD-setup.jpg

Em 1972, a febre entre os nerds eram os wargames (jogos de estratégia com tabuleiros e batalhas de exércitos de miniaturas). Na saudosa era das correspondências pelos correios, os jogadores se contatavam por meio de revistas, fanzines e criavam grupos de jogos para trocarem informações e participarem de torneios em eventos. Gary Gygax, fundador do grupo Castle & Crusade Society, reunia um grupo de interessados em cultura medieval. Criaram o zine Domesday Book (Sic), onde Gary desenvolveu um novo mapa onde os demais jogadores formariam feudos. Ele criou então um sistema de regras chamado Chainmail, que foi testado em Lake Geneva (EUA) e lanado pela Guiden Games.


Gary Gygax. Fonte: http://pcmedia.gamespy.com/pc/image/gygax_1092448504-000.jpg

Um dos jogadores, Dave Arneson, criou algumas alterações para, ao invés de controlarem exércitos, monitorarem indivíduos dentro do jogo. Dividiu as opções em Heróis ou Magos, incluiu uma lista de equipamentos e de monstros. Gygax curtiu a ideia, e, por fugir da ideia do Chainmail original, resolveu que isso seria um novo jogo: a campanha de Greyhawk, do sistema Dungeons & Dragons.


Dave Arneson. Fonte: http://2.bp.blogspot.com/-N6X93ETSzS8/UWILEmJg8WI/AAAAAAAAAt0/Ft-HA1qz1To/s1600/Dave-Arneson.jpg

Em pouco tempo, Gary escreveu 300 páginas com regras, e dessa forma nascia o D&D como veio a ser conhecido dois anos mais tarde, com seus dados de várias faces e suas planilhas para anotações de pontos. Os jogadores poderiam interpretar Guerreiros, Magos, Elfos, Anões, Ladrões e Halflings (como os Hobbitts, da saga O Senhor dos Anéis, mas por causa dos direitos autorais o nome foi alterado).


Fonte: http://img.4plebs.org/boards/tg/image/1376/42/1376420950295.jpg

O grupo de jogadores que testou a versão definitiva do jogo fundou a Tactical Studies Rules (TSR) e o lançou como produto, em várias caixas de diversas cores representando o avanço de níveis de experiência que os personagens poderiam alcançar.

O jogo logo se tornou uma febre entre estrategistas, entusiastas dos tabuleiros e até em famílias. O sucesso foi tanto que, em menos de 10 anos, uma edição revisada e bem mais abrangente foi lançada sob o nome de Advanced Dungeons & Dragons (AD&D). Infelizmente, apesar da enorme capacidade de se poder jogar de diversas formas, o AD&D complicou o que era para ser simples. Foram criadas diversas ambientações, não só em Fantasia Medieval (Forgotten Realms é o mais próximo da Terra-Média de Tolkien, e outros como Ravenloft, Planescape, Darksun, Al-Khadin e Mystara englobam outras culturas e possibilidades).


Fonte: http://www.oocities.org/fgrplanet/frealms1.jpg

Em 1991 a TSR relança o D&D básico em uma caixa muito parecida com jogos populares como War e Monopoly, visando agradar um público mais jovem, e o resultado foi um sucesso. Essa caixa saiu no Brasil no comecinho de 1994 pela Grow, e teve que concorrer com outro jogo de tabuleiro mais simples focado em fantasia medieval: o Hero Quest, da Estrela. Enquanto isso, a Editora Abril lançou os livros básicos do AD&D para conquistar os mais crescidinhos.

Conheci o D&D através dos livros importados ricos em ilustrações que chegaram xerocados por amigos mais velhos que estavam em universidades e viajaram ao exterior. Mas tenho um carinho muito especial pela caixa do D&D da Grow, com seu grande mapa da Masmorra, seus personagens em papel cartonado, seu fichário e seus dados. Ainda guardo esse jogo como um xodó e pretendo voltar a mestrar desse jeito simples, uma rolada de dados moleque, sem me preocupar com a densidade de jogos que passei narrando nos últimos 15 anos, como Wraith e Castelo Falkenstein.


Fonte: http://magisterrex.files.wordpress.com/2011/11/blogdungeonsdragonsgamefront.jpg

Na comemoração dos 20 anos do D&D em 1994, fizeram uma versão bem simplificada para apresentar o jogo às novas gerações, que temiam iniciar um jogo que requeria tantos livros e memorizações de regras. O pacote para iniciantes chamava-se First Quest, e vinha até com um CD de áudio explicando como se jogava.


Fonte: http://dmdavid.com/wp-content/uploads/2014/07/AD+D_First_Quest.jpg

Em 1997, a TSR estava nas mãos de uma editora maior, Wizards of the Coast, que lançou o card game Magic: The Gathering e se tornou a maior potência em jogos do tipo. Pouco tempo depois sairia a 3a edição do D&D e o Sistema de regras gratuito D20, uma forma de rolar dados onde qualquer editora poderia criar jogos e ambientações sem precisar criar um sistema de regras ou pagar royalties para a empresa. Uma ideia que revolucionou o RPG autoral, e que talvez tenha sido um dos pilares da queda de popularidade (além da internet, claro) do jogo de uns 10 anos pra cá.


Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/9/99/Dnd_v3_5_rulesbooks.png

Dungeons&Dragons está em sua 5a edição agora, e, embora não tenha o sucesso de outrora, ainda atrai jogadores por seu esmero gráfico e caixas introdutórias com regras mais simples. O que acha de procurar saber mais e criar um grupo de jogo em sua casa?

Gary Gygax saiu da TSR em 1985, trabalhou em outras editoras, lançou novos jogos e faleceu em 2008. Dave Arneson já não era da TSR desde os anos 70, mas ainda escrevia campanhas para D&D, chegou a visitar o Brasil no III Encontro Internacional de RPG em 1995 e faleceu em 2009.

O legado que o jogo deixou para a história foi significativo. Vejamos alguns destaques:

- Talvez a herança mais famosa do D&;D (ou algo que o popularizou ainda mais nos anos 80) foi o desenho animado Dungeons & Dragons (No Brasil, Caverna do Dragão). Com menos de 30 episódios, mas com personagens bem trabalhados, uma trama intensa e histórias que mesclavam drama, aventura, ação e fantasia, a animação logo recebeu aceitação da crítica e do público de diversas idades. Nem vou falar sobre do que se trata o desenho porque, se você é Brasileiro e mais de 12 anos, deve ter assistido uma meia dúzia de reprises de cada episódio, né?


Fonte: http://4.bp.blogspot.com/-npXfeqxRKng/Tsw0glQyYPI/AAAAAAAAAOo/QXMjGThVB0I/s1600/cavernadodragao.jpg

- Nos EUA o jogo chegou a ser tão popular quanto Banco Imobiliário (Monopoly) no final dos anos 70 e início dos 80, tanto que no filme E.T., de Steven Spielberg, os protagonistas aparecem jogando e até criando apelidos ( o apelido Zero Charisma virou título de um outro filme com temática nerd). Sem contar suas aparições nos Simpsons, Futurama, Big Bang Theory e Community.

- Alguns artistas famosos já se assumiram jogadores assíduos. O ator Vin Diesel, por exemplo, escreveu o prefácio da edição de 30 anos do jogo. Robin Williams, Marilyn Manson, Karl Urban, Sascha Grey, Mike Myers, James Franco, entre outros também já citaram D&D como hobby.



Planilha do personagem de VinDiesel. Fonte: http://www.wired.com/wp-content/uploads/blogs/geekdad/wp-content/uploads/2012/10/vin_small.jpg

- Lançou diversos artistas de talento para o mercado de ilustração, entre eles, Jeff Easley, Clyde Caldwell, Larry Elmore, Rowena Morrill...



Como vocês viram, o assunto é longo, mas vale muito à pena conhecer mais sobre as origens de elementos cruciais da Cultura Pop da nossa era. Coisas geniais não surgem do nada, e às vezes levam anos para serem aprimoradas. Portanto coloque sua criatividade para funcionar e vá rolar alguns dados. Vai ser tão divertido quanto jogar futebol de botão com seu avô...

Links relacionados: http://dnd.wizards.com/
http://en.wikipedia.org/wiki/Dungeons_%26_Dragons

Professor (e Dungeon Master) Emerson Penerari

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