quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Linguagem Arquitetônica: O que é e para que serve?

Saudações amantes da arte! Com o início das aulas do segundo semestre, muitos jovens que cursam o terceiro ano do Ensino Médio ou estão em um cursinho visando ingressar numa universidade se deparam com diversas dúvidas. A mais frequente delas é: O que irei estudar? 


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É verdade, aos 17, 18 anos a nossa mente não está tão preparada para decidirmos o que iremos fazer para o resto de nossas vidas, e infelizmente, passar no vestibular se tornou uma questão de suma importância entre famílias de classe A e B ou ditas "mais aculturadas". A geração de pais que cresceu entre os anos 70 e 80 aprenderam a valorizar tanto a formação superior e o "trabalhar para ganhar dinheiro" que acabou por passar esses valores aos seus filhos. A pressão para se dar bem num vestibular toma todo o tempo do adolescente que, até há pouco, tinha por preocupação primária o modelo de celular a pedir de presente, qual roupa vestir para ir ao cinema ou que videogame jogar no final da tarde.

Não bastasse essa pressão, escolas e cursinhos mostram-se mais preocupados em "formar" do que "informar". Cursinhos preparatórios se tornaram escolas do Ensino Médio e passam o terceiro ano apenas falando em vestibular, dando a impressão de que essa prova é a linha de chegada em uma carreira quando, na verdade, é apenas o início da vida como adulto. Por exemplo, por que tão poucos pais e escolas incentivam a leitura de clássicos da literatura ainda no período ginasial e enfiam goela abaixo uma dúzia de livros que serão citados no vestibular apenas no 3° ano? 


Fonte:http://3.bp.blogspot.com/-Pkho1FYCKZ4/Tkp0RXqeIZI/AAAAAAAAA2c/blvmRGDwbgA/s1600/NATAL+2010+077.jpg 

Essa impressão de que é preciso se preparar faltando apenas alguns meses para a prova acaba gerando um mal paralelo maior para quem vai prestar o vestibular adicionado da prova de aptidão artística (seja em Arquitetura, Design, Moda, Artes Visuais, Música, Dança, Cênicas e outros cursos que envolvem a criatividade): jovens que acreditam que irão passar nessas provas com um conhecimento ínfimo do assunto.Aspirantes a Arquitetos que não conhecem Gaudi ou Le Corbusier? Aspirantes a Designers e Artistas que não conseguem identificar movimentos como Fauvismo ou Bauhaus? Aspirantes a Estilistas que não se interessam por história da Moda e não sabem dizer as mudanças de materiais e tecidos durante os períodos das Guerras Mundiais? São esses os profissionais do futuro? Gente que depende do Google para tudo?


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Na Ânima temos um curso chamado Linguagem Arquitetônica, voltado para quem pretende prestar alguns dos cursos citados acima, do qual, ao lado do Tiago Oliveira, sou um dos professores (leciono também outros quatro cursos). Outro curso importante para quem pretende se tornar um Arquiteto ou Designer é o de Perspectiva, que também temos na Ânima. Pesquisando um pouco entre alunos, professores do Brasil inteiro e na internet descobri que, para muitos vestibulandos, pais e até mesmo educadores e escolas que também oferecem esse curso, a Linguagem Arquitetônica é subentendida e subestimada. A impressão é que o curso, erroneamente:

1) é voltado apenas para quem vai prestar Arquitetura.
2) é um curso preparatório apenas para se passar no vestibular
3) é um curso que serve apenas para mostrar provas de aptidão de anos anteriores aos candidatos para que eles entendam os temas pedidos nas universidades e façam esses exercícios como forma de preparação.
4) é um curso que ensina a desenhar plantas e edificações.

Errado. O curso de Linguagem Arquitetônica é muito mais do que isso. Essa simplificação faz parecer de que são aulas simples, com dicas muito básicas de noções de desenho (e realmente o são em escolas de desenho que não possuem professores ou métodos capacitados, infelizmente) e apenas preparatório para a prova de aptidão.


Corrigindo as 4 impressões anteriores, o Curso de Linguagem Arquitetônica que eu leciono mostra que:

1) é voltado para quem vai prestar Arquitetura, Design, Artes Visuais, Moda e outras formações que envolvem desenho, mesmo que não seja necessário fazer uma prova de aptidão.
2) Não é "apenas" para passar no vestibular. É um curso para a vida toda. Desenvolve a percepção, a memória, a criatividade, a observação e diversas noções que farão o aluno se preparar para o seu futuro como profissional. Sabemos que a universidade não ensina, ela molda o conhecimento e o interesse do aluno para o que ele quer seguir em sua carreira. Então, se você quer ser um profissional destacado em sua área, esse curso é para você. Se quiser apenas passar "raspando" na lista de espera e depois se formar um profissional medíocre, um curso rápido de desenho é o bastante. Depois você pode abrir uma lojinha de roupas, estudar advocacia e se especializar em Direto Imobiliário ou se casar com alguém bem sucedido(a) e ficar passeando com seu poodle e sua roupa de academia o dia todo em algum bairro chique por aí. Da hora a vida, né?
3) Sim, conhecer as provas anteriores é importante, mas não é tudo. De que adianta saber o que as provas pedem, sem saber como executá-las? Para mim, um bom curso de Linguagem Arquitetônica ensina desde como apontar seu lápis até compreender as diversas texturas, seja usando carvão ou colagem. 
4) Não, não é um curso de Desenho de Edificações, afinal, é voltado para diversos cursos universitários, não só de Arquitetura. O desenho das formas, objetos e até de figura humana servem para que o aluno crie a noção de desenho e se torne um observador mais criativo, qualidades fundamentais em um profissional. 



O aprendizado do desenho não vem da noite para o dia. É bom que o aluno já tenha uma pré-disposição para a prática, goste de produzir, de estudar arte, de observar os elementos e os planos espaciais. Quando um candidato decide prestar um vestibular que tenha prova de aptidão, ele deve reservar tempo para isso. Não adianta assistir algumas poucas aulas de desenho e não praticar em casa, não pesquisar a respeito. O candidato pode até ser efetivado na universidade, mas será bem mais difícil produzir os trabalhos nas matérias de Desenho de Observação, História da Arte e, por fim, ao se profissionalizar, será apenas mais um entre a multidão com um diploma na mão sem a inspiração necessária para o destaque em sua área. Já notaram como existem adultos formados com dúvidas quanto à sua capacidade e ao seu futuro? Gostaria de se enquadrar entre eles, ou que seu filho estivesse entre eles?

O curso que leciono dura 64 horas. Alguns optam em fazê-lo durante 8 meses (duas horas por semana), outros em 4 meses (quatro horas por semana), o que já dá uma base de desenho para que o aluno aprenda os conceitos necessários. Ainda assim, é imprescindível produzir trabalhos artísticos em casa, bem como carregar um caderno de campo (sketchbook) para exercitar seu aprendizado. De preferência, enquanto cursar a universidade, é bom que faça mais algum curso de técnica de desenho. E sempre praticar, praticar e praticar. Caso contrário, se fizer pouca ou nenhuma aula prática de desenho e não se aprofundar durante o período na faculdade, será apenas mais um artista/designer/arquiteto/estilista medíocre, recebendo elogios dos parentes e despreparado para a vida real no vasto campo da criatividade.

Se você leu até aqui, muito obrigado. Esse texto é bem pessoal com base no que vivenciei lecionando Linguagem Arquitetônica por 15 anos. Acompanhei centenas de pessoas que ingressaram nas áreas citadas e fiz um desabafo em prol daqueles que ainda não se decidiram ou que mudaram de curso por medo da competitividade ou da falta de emprego na área. Tenham fé, o mundo precisa de (bons) profissionais nas áreas criativas. O esforço vale a pena.

Professor Emerson Leandro Penerari


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