quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Quadrinhos: Hobby Para Gente Grande?

E aí, pessoal, tudo jóia? É, "jóia" com acento, porque eu sou das antigas, hehehe.

Vou falar um pouco de experiências pessoais e o que tenho notado nos últimos anos com respeito à leitura, quadrinhos e comércio cultural.


Está vendo alguma criança nessa convenção? 
Fonte: http://www.meteleco.com/wp-content/uploads/2011/10/DSCF4064-Small.jpg

Dando uma pesquisada em blogs e matérias de revistas, muito se falou (e ainda se fala, sem tanta necessidade) sobre o público que consome gibis: "isso é coisa de criança". Minha adolescência no final dos anos 80 foi permeada por essa frase. Afinal, aprendi a ler com as revistinhas da Turma da Mônica, depois da Disney e da Marvel. Virei colecionador. Aos 13 anos já tinha uns mil gibis. Aos 15 anos, um gerente do meu local de trabalho olhou alguns quadrinhos e revistas de música sobre a mesa do meu escritório e disse: "isso não dá futuro... se revistas servissem para alguma coisa eu encheria a minha sala com elas e ficaria rico". Não ficou rico, continuou chato, e eu troquei de profissão por causa dos gibis.

Mas voltando aos blogs e revistas, ainda vejo muita defesa dos adultos como leitores de quadrinhos, que é legal, que é "cult", que HQ é para gente "antenada", que é literatura, e por aí vai. Nem sei se ainda é preciso toda essa defesa e louvação aos quadrinhos adultos nos dias de hoje. E sabem por que?


Comic Book Guy, personagem de Os Simpsons: a imagem do leitor de quadrinhos da atualidade.
Fonte: http://www.comicbookqueers.com/wp-content/uploads/2011/05/ep148_Fanboy.jpg

Porque tenho notado em minhas frequentes visitas a bancas, livrarias e Comic Shops que boa parte das crianças não leem mais quadrinhos no Brasil. Talvez nem nos Estados Unidos. No Japão e alguns países orientais a tradição continua, mas por lá existe uma divisão muito específica de faixas etárias para os Mangás e afins. Aqui, não. É tudo leitura descartável para os leigos e, para os fãs, é algo melhor do que tudo o que já foi escrito ou desenhado. Nem um nem outro, né, pessoal? Muitos só criam um certo interesse após entrarem nas universidades. E poucos adultos que já tinham esse hábito na infância ainda se interessam em comprar novidades nas HQs.


Fonte: http://s3-ec.buzzfed.com/static/enhanced/webdr06/2013/6/4/11/enhanced-buzz-15515-1370361009-20.jpg

Deveriam existir mais pessoas interessadas em ler quadrinhos e que se agradem de outras leituras e mídias, assim como os próprios leitores de bandas desenhadas deveriam abrir mais a mente para a literatura, as revistas de variedades e mesmo outros tipos de quadrinhos (sim, ainda existe preconceito entre leitores do estilo europeu, dos heróis, da Luluzinha e por aí vai).

O Maurício de Souza ainda domina o setor infantil das HQs, vendendo muito bem, tanto material inédito como reedições de boas histórias da Turma da Mônica. Eu mesmo leio até hoje. Mas, convenhamos que citações à Cultura Pop atual em suas histórias (devido ao pessoal mais novo que ingressou no estúdio) como Crepúsculo, The Walking Dead, cantoras de Axé e as aclamadas e fantásticas Graphic MSP que retratam os personagens do Maurício por olhos de quadrinistas em sua maioria advindos dos fanzines e HQs independentes não são feitas para agradar as crianças. Qual leitor de 6 anos (como minha filha) deveria saber do que se trata a Saga Crepúsculo? Ou entender uma diáspora de homens das cavernas com referências culturais do nordeste brasileiro?

Algumas revistas recentes da Turma da Mônica que dei à minha filha, com Cláudia Leitte, Crepúsculo e The Walking Dead. 



Piteco, na fabulosa história "Ingá", de Shico.
Fonte: http://renegadoscast.com/wp-content/uploads/2013/12/9.jpg

Mesmo assim, ainda sou fã. Porque cresci junto com estes personagens. E essa simbiose com a Cultura Pop sempre existiu. Mas nos anos 80 parecia bem mais infantilizado. Eu lia Recruta Zero (Beetle Bailey) e até entendia bem as histórias, mesmo as que tratavam de treinamentos estratégicos militares (meu tio serviu o exército e me explicava, é verdade). Lia adaptações de livros como O Homem Invisível (H. G. Wells), na versão do Pateta. Mas não sei se isso agradaria às crianças de hoje.


Recruta Zero, de Mort Walker.
Fonte: http://tanis.cso.niu.edu/comics/2005.08.21/BeetleBailey-2005.08.21


Fonte: http://mlb-s2-p.mlstatic.com/pateta-faz-historia-6-como-o-homem-invisivel-nov82-14023-MLB4057791919_032013-F.jpg

Com os quadrinhos de Super-Heróis, acho que o impacto foi maior. Se nos anos 1930 os encapuzados coloridos faziam a cabeça do público maior de 16 anos, nos anos 1950 Fredric Wertham definiu e estabeleceu o clima infantilizado das histórias. Superman tinha um supercão, Batman enfrentava um duende chamado Bat-Mirim, e por aí vai. Os adultos ainda tinham como opção as revistas de humor, como a Mad, ou as de terror e suspense.


Dr. Fredric Wertham.
Fonte: https://www.awesomestories.com/images/user/61d87b41db.jpg

Daí em diante a coisa passou a ser mais séria. A Marvel, mesmo com todo apelo infantil, tratava seus Heróis como monstros, aberrações e envolvia assuntos como política e preconceito. Nos anos 70, Batman voltou a ser o grande detetive dos primeiros anos, e o Superman passou a enfrentar ameaças digna de seus poderes. Nos anos 80 e 90, sagas como Monstro do Pântano, Cavaleiro das Trevas, Watchmen, A Queda de Murdock, Sandman, Demônio na Garrafa, Hellblazer e a caracterização dos anti-heróis como Wolverine, Justiceiro, Spawn e outros garantiram que quadrinho não era mais coisa de crianças.

Os super heróis ainda possuem um apelo muito grande entre a criançada, mas sinto falta daquelas histórias mais inocentes para cativar os pequenos. Histórias envolvendo espionagem, altas traições, assassinatos violentos, bruxaria e adultério se tornaram mais comuns, mesmo entre personagens de colantes coloridos e capas esvoaçantes. Com a chegada desses personagens ao cinema, o que gerou uma incansável busca pelo lucro dos fabricantes de brinquedos, vemos que o mercado dos colecionadores crescidos é o mais buscado. Afinal, uma criança de 5 anos não vai querer uma figura de ação do Coringa com a cara cicatrizada do Heath Ledger, uma Gwen Stacy estatelada no chão, uma Viúva Negra em pose sensual ou um Hellboy num emaranhado Lovecraftiano de tentáculos.


Qual boneco do Coringa você compraria para uma criança? Esse...
Fonte: https://c1.staticflickr.com/7/6045/6254720084_bd676bab9f_z.jpg


... ou Esse?
Fonte: http://www.entertainmentearth.com/images/AUTOIMAGES/DCMMS72lg.jpg

As empresas ainda tentam ganhar os pequenos com bonecos estilizados e desenhos animados bem mais infantis, o que é um ponto positivo. O lado ruim é que fica faltando incentivo à leitura. A criançada só conhece os personagens oriundos das HQs por causa dos filmes, animações, seriados e brinquedos, e não lêem suas histórias. Ainda sinto uma certa alegria quando converso com alunos mais novos e eles se mostram interessados em ler livros e HQs. Mas sinto que são muito poucos. A maioria prefere ver os filmes. Mesmo com sucessos como Jogos Vorazes e Divergente, desde Percy Jackson e Harry Potter não vejo uma comunidade tão grande de pré-adolescentes falando de seus livros preferidos. Uma grande pena.

Outra prova do interesse em atingir os adultos é o preço. Lembro de um aluno comentando comigo no final dos anos 90: "Agora entendo porque essas HQ's do selo Vertigo são recomendadas para leitores adultos: o preço é muito alto para um jovem que não trabalha conseguir comprar".
E é mesmo. Quando era criança, uma revista em formato pequeno, 84 páginas, tinha um preço bem modesto (seria em torno de R$ 4,50 hoje). Hoje, é até possível comprar um gibi da Turma da Mônica, Disney, Menino Maluquinho ou algum Mangá que custe menos do que um corte de cabelo. Mas a grande maioria das publicações são compilações de várias revistas em um almanaque, ou possuem acabamento gráfico de primeira, com capa dura, papel brilhante, ou, pior ainda, são séries onde, para se entender a história, é preciso comprar várias revistas. Como uma criança de 12 anos que não tem pais ricos poderá comprar os recentes arcos de histórias de seus heróis favoritos? Sem contar a quantidade de clássicos que são reeditados todo ano para alegrar aquela criança crescida dos anos 80 (como eu) que, na primeira vez que foi lançado, não teve o tratamento merecido. E tome novamente Watchmen, Cavaleiro das Trevas, Arma X, Demolidor: Homem Sem Medo, V de Vingança e outras com preço altíssimo e acabamento digno de uma estante de mogno maciço com parafusos banhados em ouro.
 

Haja grana para tantos quadrinhos luxuosos!

Como fã, me sinto muito feliz com essa onda de relançamento de clássicos em versões de qualidade. Mas tenho mais de 30 anos e uma profissão que me permite gastar dinheiro com isso (só não tenho tempo para reler todas essas histórias, quem sabe um dia). Mas se tivesse 13 anos hoje me sentiria realmente frustrado e teria que me contentar com os games, filmes e animações dos meus personagens favoritos. Minha filha em fase de alfabetização é uma privilegiada, pois já é herdeira de um império erigido em papel, boa arte e bons textos. Incentivemos então as crianças a lerem cada vez mais, mesmo que seja comprando gibis antigos e baratos em sebos. Os pequenos merecem mais tempo folheando papel ao lado de alguém mais velho, e não apenas na frente das telas de TV, PC, celulares, tablets, Ipads e outras diversões descartáveis.

Fiz diversas citações a nomes, histórias e personagens sem uma explicação detalhada, para não perder tempo nem espaço. Se algum leitor tiver alguma dúvida, é só me escrever perguntando ou me chamar para bater um papo na Ânima, certo? Abraços e até a próxima!

Professor Emerson Leandro Penerari

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