quinta-feira, 26 de março de 2015

Dicas muito sábias de Moebius para aspirantes a Artistas


Fonte:http://ifanboy.com/wp-content/uploads/2012/03/jean-giraud-moebius.jpg


Texto extraído do site (em inglês):http://www.openculture.com/2015/03/moebius-gives-18-wisdom-filled-tips-to-aspiring-artists-1996.html

Jean Giraud (1938-2012), conhecido como Moebius, foi um artista de quadrinhos que combinou velocidade estonteante com imaginação sem limites. Ele trabalhou na arte conceitual de filmes como Alien, o Oitavo Passageiro, O Império Contra-Ataca e O Quinto Elemento. Também reimaginou o Surfista Prateado para Stan Lee. E é uma influência reconhecida em todo o mundo, do animador japonês Hayao Miyazaki ao grande escritor de ficção científica William Gibson.

Em 1996, o jornal mexicano La Jornada publicou uma palestra dada por Moebius chamado "Breve Manual para Historietitas" - como o nome diz, um breve manual para quem trabalha com quadrinhos - que é composto por 18 dicas para novos artistas.


Fonte:http://www.artedesigncultura.com.br/wp-content/uploads/2010/09/voyagedhermes_moebius_021.jpg

A Jornada de Moebius e Um Pouco Sobre o Tradutor William Stout

A primeira dica de Moebius é "Quando você desenha, primeiro você deve limpar-se de profundos sentimentos, como ódio, felicidade, ambição, etc."

O tradutor do texto para o inglês (e desenhista) William Stout amplifica isso da seguinte forma:

"Estes sentimentos são tipicamente preconceitos emocionais que funcionam como um bloco para a criatividade."

Isso era algo que eu aprendi com desenho e  em papos com outro francês, o brilhante cartunista e ilustrador (e regular contribuinte do periódico Atlantic Monthly) Guy Billout, quando estávamos viajando juntos na Antártida e Patagônia em 1989. Até passar algum tempo com Guy, não tinha idéia de como muitas noções e hipóteses pré-concebidas eu guardara por dentro sobre pessoas e situações, e que eram um bloqueio para o fluxo da minha criatividade.

Divorciar-se de tais pré-concepções que cegam emocionalmente lhe permite ver as coisas com outros olhos. Soluções e ideias fluem com muito mais facilidade. Tenho notado com todos os gênios criativos que conheci que todos eles compartilham um prazer infantil com o que ou quem quer que encontramos na vida (que podem até encontrar diversão em vilões da vida real). Para eles, todas as barreiras criativas estão em baixa; vida e resolução criativa de problemas para eles é um jogo constante. Eles deixam brotar grandes idéias o dia todo como uma fonte.

Todas as anotações de William Stout são assim. Ele deveria ser leitura obrigatória para qualquer um, mesmo os vagamente interessados ​​em narrativas visuais. Abaixo estão as observações originais de Moebius:


Fonte: https://fluffrick.files.wordpress.com/2012/03/original.jpg

1) Quando você desenha, primeiro você deve limpar-se de profundos sentimentos, como ódio, felicidade, ambição, etc.

2) É muito importante educar sua mão. Faça-lhe atingir um nível de alta obediência para que ela seja capaz de expressar suas idéias de forma adequada e plena. Mas tenha muito cuidado ao tentar obter muita perfeição, assim como muita velocidade como um artista. Perfeição e velocidade são perigosos - como são seus opostos. Quando você produz desenhos que são muito rápidos ou muito soltos, além de cometer erros, você corre o risco de criar uma entidade sem alma ou espírito.

3) Conhecimento de perspectiva é de suprema importância. Suas leis fornecem uma maneira boa e positiva para manipular ou hipnotizar seus leitores.

4) Outra coisa a se abraçar com carinho é o estudo do corpo humano - anatomia, posições, tipos de corpo, as expressões, construção, e as diferenças entre as pessoas.

Desenho de um homem é muito diferente do desenho de uma mulher. Com os homens, você pode ser mais flexível e menos preciso na sua representação; pequenas imperfeições muitas vezes pode adicionar o caráter. Seu desenho de uma mulher, no entanto, deve ser perfeito; uma única linha mal colocada pode dramaticamente envelhecê-la demais ou torná-la chata ou feia. Aí ninguém irá comprar o seu quadrinho!

Para o leitor a acreditar em sua história, seus personagens devem se sentir como se tivessem vida e personalidade própria.

Seus gestos físicos devem parecem emanar de forças, fraquezas e enfermidades do seu personagem. O corpo se transforma quando é trazido à vida; há uma mensagem na sua estrutura, na distribuição da sua gordura, em cada músculo e em cada ruga, vinco ou dobra da face e corpo. Torna-se um estudo da vida.


Fonte: http://www.bpib.com/illustrat/giraud7.gif


5) Quando você cria uma história, você pode começar sem saber tudo, mas você deve fazer anotações à medida que avança sobre as particularidades do mundo retratado em sua história. Tais detalhes fornecerão aos seus leitores características reconhecíveis que despertam o interesse.

Quando um personagem morre em uma história, a menos que o personagem tenha sua história pessoal expressa de alguma forma no desenho de seu rosto, corpo e roupas, o leitor não vai se importar; o leitor não terá qualquer ligação emocional.

Seu editor pode dizer: "Sua história não tem valor; só há um cara morto - Eu preciso de vinte ou trinta caras mortos para que isso funcione ". Mas isso não é verdade; Se o leitor se identifica com o cara morto, ou os caras feridos, ou caras machucados ou quem tiver com problemas que tenha uma personalidade real em virtude de seus próprios estudos profundos da natureza humana - com a capacidade de um artista para tal observação - as emoções surgirão.

Por esses estudos, você vai desenvolver e ganhar a atenção de outras pessoas, bem como uma compaixão e amor para a humanidade.

Isto é muito importante para o desenvolvimento de um artista. Se ele quer funcionar como um espelho da sociedade e da humanidade, este espelho deve conter a consciência de todo o mundo; ele deve ser um espelho que vê tudo.

6) Alejandro Jodorowsky (roteirista renomado que trabalhou com Moebius em várias obras, como o Incal) diz que eu não gosto de desenhar cavalos mortos. Bem, isso é muito difícil.

Também é muito difícil traçar um corpo adormecido ou alguém que tenha sido abandonado, porque na maioria dos quadrinhos é sempre ação que está sendo estudado. É muito mais fácil desenhar pessoas que lutam - é por isso que os americanos quase sempre desenhar super-heróis. É muito mais difícil desenhar pessoas dialogando, porque isso é uma série de movimentos muito pequenos - pequenos, mas com significado real.

Sua busca por mais é por causa da nossa necessidade humana de amor ou a atenção dos outros. São estas pequenas coisas que falam da personalidade, da vida. A maioria dos super-heróis não têm qualquer personalidade; todos eles usam os mesmos gestos e movimentos.

7) Igualmente importante é a roupa de seus personagens e do estado do material a partir do qual ela foi feita.

Estas texturas criam uma visão das experiências de seus personagens, suas vidas, e seu papel na sua aventura de uma forma onde muito pode ser dito sem palavras. Em um vestido existem mil dobras; você precisa escolher apenas duas ou três - não desenhar todas. Apenas certifique-se que você escolheu as melhores duas ou três.

8) O estilo, a continuidade estilística de um artista e sua apresentação pública está cheia de símbolos; eles podem ser lidas como cartas de Tarot. Eu escolhi o meu nome "Moebius" como uma piada quando eu tinha vinte e dois anos de idade - mas, na verdade, o nome veio a ressoar com significado. Se você chegar vestindo uma camiseta do Don Quixote, isso me diz quem você é. No meu caso, fazer um desenho de relativa simplicidade e indicações sutis é importante para mim.


Fonte: http://fc01.deviantart.net/fs16/f/2007/203/4/b/Homage_of_Gir_Moebius_II_by_floaty_real.jpg

9) Quando um artista, um artista real de trabalho, sai na rua, ele não vê as coisas da mesma forma que as pessoas "normais". Sua visão única é fundamental para documentar um modo de vida e as pessoas que vivem nele.

10) Outro elemento importante é a composição. E devem ser estudadas porque uma página ou uma pintura ou um painel é um rosto que olha para o leitor e fala com ele. A página não é apenas uma sucessão de painéis insignificantes. Há painéis que estão cheios. Alguns que estão vazios. Outros são verticais. Alguns horizontais. Todos são indicações de intenções do artista. Painéis verticais excitam o leitor. Horizontais acalmam. Para nós, ocidentais, o movimento em um painel que vai da esquerda para a direita representa a ação indo em direção ao futuro. Movendo-se da direita para a esquerda dirige a ação para o passado. As direções que indicam representam uma dispersão de energia. Um objeto ou personagem colocado no centro de um painel foca e concentra a energia e a atenção. Estes são símbolos de leitura básicos e formas que evocam no leitor um fascínio, uma espécie de hipnose. Você deve estar consciente de armadilhas de ritmo e definir para o leitor que, quando ele se apaixona, ele se perde, o que lhe permite manipular e mover-lo dentro de seu mundo com maior facilidade e prazer. Isso porque vocês criaram um sentimento de vida. Você deve estudar os grandes pintores, especialmente aqueles que falam com suas pinturas. Suas escolas de pintura individuais ou gêneros, ou períodos de tempo, não importa. Sua preocupação com a composição física, bem como emocional deve ser estudado para que você saiba como sua combinação de linhas trabalha para nos tocar diretamente dentro de nossos corações.

11) A narração deve harmonizar-se com os desenhos. Deve haver um ritmo visual criado pela colocação de seu texto. O ritmo do seu enredo deve ser refletido em sua cadência visual e do jeito que você comprime ou expande o tempo. Como um cineasta, você deve ter muito cuidado em como coloca e direciona seus personagens na trama. Use seus personagens, ou "atores", como um diretor, estude-os e, em seguida, selecione-os a partir de todos os seus diferentes ângulos.

12) Cuidado com a influência devastadora de quadrinhos norte-americanos. Os artistas do México parecem apenas estudar seus efeitos superficialmente: um pouco de anatomia misturado com composições dinâmicas, monstros, brigas, gritos e dentes. Eu gosto de algumas dessas coisas também, mas há muitas outras possibilidades e expressões que também são dignos de exploração.


Fonte: http://www.imakinarium.net/notis/2010/6/100623_hendrix/moebius_hendrix2.jpg

13) Há uma conexão entre música e desenho. O tamanho dessa conexão depende de sua personalidade e que está acontecendo naquele momento. Nos últimos dez anos, tenho trabalhado em silêncio; para mim, há música no ritmo de minhas linhas. Desenho às vezes é uma busca por descobertas. A linha precisa e muito bem executada é como um orgasmo!

14) A cor é uma linguagem que o artista gráfico usa para manipular a atenção do seu leitor, bem como para criar beleza. Há cor objetiva e subjetiva. Os estados emocionais dos personagens podem alterar ou influenciar a cor de um painel para o outro, como o local e hora do dia. Estudo e atenção especial deve ser dada para a linguagem da cor.

15) No início da carreira de um artista, ele deve envolver-se principalmente na criação de histórias curtas de qualidade muito elevada. Ele tem mais chance (do que com histórias formato longo) de completá-las com sucesso, mantendo um alto padrão de qualidade. Também será mais fácil colocá-los em um livro ou vendê-las a uma editora.

16) Há momentos em que conscientemente entramos de cabeça por um caminho de fracasso, a escolha do tema ou assunto errado para as nossas capacidades, ou escolhendo um projeto que é muito grande, ou técnica inadequada. Se isso acontecer, você não deve se queixar mais tarde.

17) Quando o novo trabalho é enviado para um editor e ele o rejeita, você deve sempre perguntar e tentar descobrir as razões para a rejeição. Ao estudar as razões para o nosso fracasso, só então podemos começar a aprender. Não se trata de lutar com nossas limitações, com o público ou com os editores. É a própria força e poder de nosso adversário que é usado como a chave para a sua derrota.

18) Hoje em dia é possível expor nossas obras para leitores em todas as partes do planeta. Devemos sempre ter consciência disso. Para começar, o desenho é uma forma de comunicação pessoal - mas isso não significa que o artista deve fechar-se numa bolha. Sua comunicação deve ser para aqueles que estão esteticamente, filosoficamente e geograficamente perto dele, bem como para si mesmo -, mas também para completos estranhos. O desenho é um meio de comunicação para a grande família que nós não conhecemos, para o público e para o mundo.


Fonte: http://blog.thenewblack.me/wp-content/uploads/2014/10/moebius-.jpg
Jean "Moebius" Giraud

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