quinta-feira, 2 de abril de 2015

BIRDMAN e os astros de filmes das HQs

Tá certo, tá certo, eu sei que estou atrasado. Mas é por isso mesmo que resolvi falar de Birdman só agora: porque todos os sites de entretenimento já deram as suas críticas, ele ganhou Oscar de melhor filme, direção, roteiro original e fotografia e até quem não estava acompanhando o burburinho já assistiu. E eu nem vou fazer uma crítica sobre o filme em si. Na verdade, falarei sobre uma das alfinetadas que ele deu. Sobre o futuro das produções inspiradas na cultura pop.


Poster em vetor de Birdman. Bem legal, né?Fonte: https://starsmydestination.files.wordpress.com/2015/01/birdman-poster.jpg

Dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu  (21 Gramas, Babel), estrelado por um elenco de tirar o chapéu (Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts, entre outros), o filme retrata a dificuldade de um ator que outrora interpretava um super-herói na telona salvar sua carreira em uma peça na Broadway ante a crítica implacável, sua equipe repleta de obstáculos e seu próprio ego. O filme fez sucesso pelas ótimas atuações, belos diálogos e a impressão gerada de ter sido feito sem cortes, em um take único nos arredores de um teatro. Fotografia muito bacana, música percussiva e timing sagaz. Mas talvez nem tudo isso justifique o prêmio máximo da academia cinematográfica. O que justifica? Talvez a falta de filmes bons para concorrer? Talvez os jurados tenham se identificado com a biografia do protagonista? Ainda fico com a escolha deles, de melhor Roteiro Original (coisa quase ausente em tempos de adaptações de livros, quadrinhos, games e brinquedos, mas mesmo assim com uns momentos um tanto manjados no cinema americano) e de Fotografia.


Keaton atormentado por seu alter ego. Fonte: https://filmlefou.files.wordpress.com/2014/11/la-et-mn-alejandro-g-inarritu-birdman-20141031.jpg

Diante de um filme cujo sucesso dividiu crítica e público, o diretor coloca em questão um ponto um tanto ignorado pelos consumidores de cinema: até quando um ator estereotipado por um personagem vindo de uma mídia tão subestimada como as HQs de heróis fantasiados sobreviverá de seu sucesso?


Keaton atormentado por Norton. Fonte: http://www.joblo.com/big-movie-images/birdman-image-5-6-20.jpg

Não é um assunto novo. É uma realidade, e bem antiga. Afinal, você conseguiria listar quantos trabalhos de sucesso Mark Hamill emplacou após O Retorno de Jedi? Tá, os mais nerds sabem listar de cor as diversas animações das quais ele participou como dublador, mas será que era isso que ele planejava desde o começo? "Vou fazer três filmes de uma saga Space Opera que me dará segurança financeira para o resto da vida e depois vou virar dublador de animações para TV". 


Mark Hamill: não mais um rostinho bonito. Fonte: http://supernovo.net/wp-content/uploads/2013/02/Luke-Andarilho-dos-Ceus.jpg

Que tal retrocedermos mais um pouco no tempo: o que Adam West e Burt Ward fizeram de relevante após o fim da série de TV do Batman? Será que sonharam com o Oscar alguma vez em suas carreiras? Os três anos de sucesso da série os transformaram em rockstars, e com certeza as participações em programas de TV e convenções ainda os mantém na mídia. Mas será que era esse o objetivo?


Burt "Robin"  Ward e Adam "Batman" West.Fonte: http://www.darkknightnews.com/wp-content/uploads/2014/04/burtwardadamwest.jpg

Riggan Thomson, o personagem de Michael Keaton, é esquizofrênico, tenta provar a si mesmo o tempo todo que sabe atuar, mas fica preso ao passado ao ouvir a voz de Birdman, personagem que lhe rendeu fama, o atormentando e tentando mostrar como os filmes atuais estão decadentes. E em partes ele tem razão. 

O que nos leva a pensar nessa geração de novos atores, que se prendem a um personagem nas telonas ou mesmo em seriados e que provavelmente levarão eras para emplacarem algo do mesmo nível. Não falo de Christian Bale que incorporou elementos de seu Batman em muitos personagens e consegue atuar em dramas, suspenses e ficção científica. Robert Downey Jr também começou muito bem, e usou a franquia super-heroística para salvar a sua carreira. Talvez não faça nunca mais algo tão relevante quanto seu Chaplin, ou o repórter sensacionalista de "Assassinos Por Natureza", mas essas personas já estão lá. E que dizer de veteranos como Anthony Hopkins, Glenn Close, Donald Sutherland? Esses participam pela pura diversão e pela grana, já que muitas vezes ligam o piloto automático e não fazem interpretações mirabolantes. De um jeito ou de outro, acabam angariando mais bilheteria para os filmes por causa de seus nomes.


Glenn Close na Tropa Nova. Fonte: http://i.dailymail.co.uk/i/pix/2014/07/25/article-2705613-1FFA3A3200000578-932_634x400.jpg

Mas o que dizer de quem deu as caras pela primeira vez como um arquétipo saído do gibi/livrinho da moda/game? Vai viver do que quando a franquia acabar? Jennifer Lawrence e Chris Hemsworth já estão correndo atrás da carreira, mas o que dizer de Henry Cavill, Stephen Amell, Andrew Lincoln, Elizabeth Olsen, Gal Gadot? Conseguiremos ver a face desse pessoal longe de uniformes coloridos, raios saindo das mãos e dos olhos, armas para matar zumbis, indumentária pseudo-medieval evocando as criações Tolkenianas? Estarão fadados a aparecer em convenções nerds na velhice para reproduzir frases de seus personagens clássicos? E isso é o suficiente para eles?


Elizabeth Olsen: sucesso apenas em convenções nerds? Fonte: http://www.blackfilm.com/read/wp-content/uploads/2014/07/SDCC-2014-Avengers-Age-of-Ultron-press-line-pic-Elizabeth-Olsen-2.jpg

Lembrando que não tenho nada contra estes atores e seus personagens (tá, tem uns personagens que eu não conheço e não gosto, mesmo e nem adianta tentarem me convencer que Crepúsculo, 50 Tons de Cinza e Divergente são bons porque eu tenho uma pilha de coisas melhores para ler/ver, ok?). Mas me preocupo com o rumo que o entretenimento geral está tomando. Em uma era onde os filmes concorrentes ao Oscar expõem idéias indulgentes nem sempre bem executadas, um ator decadente perseguido por um cara vestido de pássaro nos faz pensar sobre a fragilidade do show business. Isso é perturbador. Como Birdman. Assista, depois me fale o que achou. Enquanto isso, eu revejo Guardiões da Galáxia e Operação Big Hero, profundos dentro de seus limites estéticos, mas bem mais divertidos e dignos de boas risadas e emoções lacrimejantes regadas a refrigerante quente e pipoca fria.

Emerson Leandro Penerari - Professor


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