quinta-feira, 9 de abril de 2015

Dom - Virtuosismo, Genialidade ou Curiosidade?

Bom dia, amantes da arte!
Estava lendo um livro bem interessante (Por Toda PArte, de Solange Utuari, Daniela Libâneo, Fábio Sardo e Pascoal Ferrari - Editora FTD-SA - 2013) que é distribuído em algumas escolas públicas aos alunos do ensino médio, e tem dicas valiosas sobre conhecimento e auto avaliação para entender a arte. Colocarei alguns trechos resumidos do capítulo para você ponderar sobre como surge a arte.

Em um dos temas propostos, os autores dissertam justamente sobre a criatividade: ela NÃO É exclusividade dos artistas, mas inerente a todos os seres humanos e presente em muitas áreas do conhecimento.

O interessante do conceito de criatividade é que em cada época e sociedade foi dada uma explicação ao seu significado, e uma das ideias mais comuns é de que ser criativo ou talentoso para as artes é um "dom". Essa concepção vem da época das musas inspiradoras da Grécia antiga. Depois, como se fosse um presente dado por Deus, algo sobrenatural.


Hesíodo e a Musa, de Gustave Moreau, 1891. Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7c/Moreau,_Gustave_-_H%C3%A9siode_et_la_Muse_-_1891.jpg


A Criação de Adão, de Michelangelo, 1512 . Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/64/Creaci%C3%B3n_de_Ad%C3%A1n_(Miguel_%C3%81ngel).jpg

Em algumas culturas o dom encarado como uma graça recebida tem a ver com a ideia de merecimento. Na modernidade, com as diversas formas de criar, o mérito da criatividade é algo a ser questionado.

Foi então que outras explicações para o ato criativo foram usadas, como por exemplo o virtuosismo e a genialidade. Os artistas da época do Romantismo eram estimulados pela ideia de superar os próprios limites, como a liberdade e a expressão de suas emoções, tanto na música como na pintura, arquitetura e escultura.


Paganini, de Eugene Delacroix, 1831: dois virtuosos em suas respectivas áreas. Fonte: http://36.media.tumblr.com/tumblr_mcxctoGpWa1rrnekqo1_1280.jpg

Por mais que tenhamos hoje artistas que se preocupam em alcançar o virtuosismo técnico, apenas isso não basta. A expressão criativa precisa de uma poética, um estilo que marque a singularidade da expressão. As conquistas no campo do conhecimento e das habilidades não se desenvolveram sem um conjunto de influências, situações e interações nas diversas fases da vida. Chame de dom, técnica, predisposição natural ou interesse em pesquisar são diferentes maneiras de explicar a criatividade no ser humano.

Pessoalmente, nunca acreditei em "dom". Ouço até mesmo da boca de artistas que, para criar, é preciso ter o dom. Se fosse assim, por que eu me preocuparia em ler centenas de livros sobre arte, desde a sua história até dicas técnicas de traço e materiais? Por que me importaria em visitar frequentemente museus e observar atentamente como as obras foram feitas? Por que refazer várias vezes um esboço até que me agrade dele e possa finalizá-lo? Será que existe algum artista que simplesmente produz arte sem nenhuma influência, conhecimento e esforço?


Homer recebendo um "dom" de Deus. Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/8/84/Thank_God,_It's_Doomsday.png

A palavra que eu costumo usar é "interesse". Quando a pessoa se interessa, ela não mede esforços para aprender. Ela gosta do processo, não apenas de ver suas artes terminadas. Ela admira outros artistas, ela capta dicas mesmo que sejam em áreas que ela não conhece muito. Um pintor pode aprender muito de um escultor, um músico ou de um filme, por exemplo. Por isso, aspirante a artista, não se desespere. Você não precisa ter o dom. Paciência e interesse são fundamentais, mas não surgirá uma pomba branca sobre a sua cabeça e abrindo os portais da criatividade.

Quando criamos dizemos o que pensamos ou desejamos, essa necessidade se origina das situações que vivemos e delas guardamos uma memória da observação e interpretação das coisas. Também projetamos o futuro e o que poderíamos passar. Criar é pesquisar, é indagar. E aí, já criou hoje?

Professor Emerson Leandro Penerari


Nenhum comentário: