quinta-feira, 28 de maio de 2015

Livros de Colorir para adultos viram febre... e daí?

Saudações, amantes da arte! Hoje falarei um pouco sobre essa febre que se alastrou pelo país (por que tudo que vira uma simples moda no planeta vira uma doença exagerada aqui nas terras do HUEBR?) que são os livros adultos antiestresse para colorir. A essa altura do campeonato você já deve ter um, ou sua mãe tem, ou um parente tem, ou as amigas compraram, ou você viu na internet, ou viu uma prateleira inteira na livraria dedicada a esse tipo de livro.


Fonte: http://s03.video.glbimg.com/x240/4113718.jpg

Eu até ia colocar o título da postagem como parte 4 da minha série "A Banalização da Palavra Arte" (já leu os demais textos que escrevi sobre isso? Os links estão no final do artigo), mas não acho que uma moda voltada para um nicho deva ser chamada de ARTE. Nem ARTETERAPIA, como alguns andam pregando por aí. Antes que me acusem de "hater", reclamão, velho chato, invejoso ou qualquer adjetivo negativo só por eu já ter iniciado o texto de forma levemente irônica, sugiro que leia o artigo na íntegra e, caso discorde, apareça na Ânima para defender seus argumentos ao som de boa música e tomando um delicioso copo de café.

Quando digo "nicho", é porque notei que a grande massa que consome esse tipo de livro são mulheres, donas de casa ou que têm empregos enfadonhos. Ou seja, o público alvo de "50 Tons de Cinza" resolveu colocar um pouco mais de cor em suas vidas. Estão muito felizes por terem adquirido seus livrinhos anti-estressantes, e querem competir com suas amigas para ver quem pinta mais bonito, mais veloz. Mas me diga aí: quem está curada do estresse por causa dos livros?


Capa original do livro Floresta Encantada. Fonte: http://ecx.images-amazon.com/images/I/A1c70SokGkL.jpg

Os livros mais famosos e que iniciaram essa onda são "Jardim Secreto" (publicado na Inglaterra em 2013)  e "Floresta Encantada" da jovem ilustradora escocesa Johanna Basford. Mas como tudo que vira moda sofre uma enxurrada de oportunismo, dezenas de outros profissionais e editoras já trataram de lançar os seus. Fui em uma livraria essa semana e vi livros para colorir com motivos de tatuagens, super-heróis, obras de Arte, mandalas, motivos celtas e até eróticos.


Para todos os gostos... Fonte: https://statics.r.worldssl.net/products/capas_lg/381/42893381.jpg

Buscando informações sobre essa onda para tentar entendê-la, me deparei com sites e blogs incrivelmente mal escritos (um livro chamado "Pintando Com Gaudí", foi chamado de "Pintando com Gandi (sic), ou seja, um artigo feito por quem não sabe a diferença entre um arquiteto e um estadista!), onde a defesa do hobby não alega motivação nenhuma, com comentários do tipo "minha amiga comprou e eu vou comprar também", ou "é bonito, vou colorir com meus filhos". Até aí tudo bem, nenhum entretenimento precisa ter uma funcionalidade messiânica no universo. Mas também uma coisa tão fútil não precisa receber uma supervalorização tão grande como essa onda.


Fonte: http://www.materiaincognita.com.br/wp-content/uploads/2013/07/Livro-de-colorir-gotico.jpg

Na época da minha avó, era o tricô, o bordado, o crochê. Na época da minha mãe, era o piano, a alta gastronomia e a datilografia. Aprendizados que se tornam úteis para a vida. Hoje em dia, basta colorir e postar uma foto dizendo que está mais leve e feliz.


Fonte: http://3.bp.blogspot.com/_Q5al-0kVLwI/TDTSy76t0LI/AAAAAAAAAVQ/wMsfwKEm7Y4/s1600/159.jpg

Talvez essa onda de ócio entre as pessoas, a necessidade de preencher um vazio que gera estresse na vida seja mais um sinal de que aos poucos vamos regredir à Era das Trevas. Parece bobagem? Lembrem-se que foram registrados 119 casos de Peste Negra em 2014 só na Africa.

Black Death
Fonte: http://www.syracuse.com/news/index.ssf/2014/11/plague_outbreak_kills_40_on_madagascar_119_diagnosed_since_august.html

Quem deve ter se empolgado com a nova moda são as empresas que fabricam lápis de cor, afinal ganharam clientes que não compravam seus produtos desde que (eles ou os filhos) saíram do ensino primário, criando um boom e reaquecendo o mercado.


Genial esta página que já começa errando o nome do próprio livro! Fonte: http://inventandocomamamae.blogspot.com.br/2015/04/livros-para-colorir-jardim-secreto-e.html

Ouvi argumentos tais como: "Ah, mas você deveria gostar, afinal, os livros de colorir trazem mais pessoas para o mundo das artes". Será? Eu acho que é uma moda passageira. Quantas pessoas se tornaram dançarinos profissionais por causa da febre do Harlem Shake? Quantos se tornaram dubladores profissionais por causa da onda do Dubsmash? Nem o joguinho Guitar Hero transformou gamers em músicos de verdade, por que eu deveria acreditar que essas pessoas se interessarão mais por arte? Vai durar mais alguns meses, até surgir outra moda para desocupados.

Outro argumento que li em uma matéria é que essa "ocupação" de colorir livros afasta as pessoas da hiper-conectividade atual. Até acreditaria, se não recebesse diariamente fotos e vídeos de pessoas envolvidas nesse árduo trabalho que é mostrar ao mundo como aprendeu a pintar com lápis de cor. Mais chato que foto de copão de café do Starbucks, né?

Caso você discorde e tenha seus argumentos para defender os tais livros, ficarei muito feliz em saber, afinal é sempre bom conhecer idéias divergentes que mostram como Nelson Rodrigues tinha razão quando disse "Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar".

Só lembrando que os livros de colorir se tornaram uma unanimidade em seu nicho. Brrrrrrrrr...


Professor Emerson Leandro Penerari

A banalização da palavra "Arte":
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